sexta-feira, 27 de abril de 2018

ENCRUSTADO

Tenho a aridez de teus lábios
Encalacrada em meu pensamento,
Um poema em estado bruto,
Lapidado
Nas constantes tempestades
De minhas palavras
Vomitadas em blasfêmias.

GÊNESIS

Álcool reticente na garganta;
Palavras encalacradas,
Átomos dispersos
Dentro de mim;
Um caos contido a força.

A beleza reside
Precisamente
Em sê-la
Sem, necessariamente,
Precisarmos
Sabê-la.

Álcool em torrente na garganta;
Reticente,
Vomito estrelas.

CÍRCULO

Jogue fora
Tudo aquilo que o poema
Não pode me trazer.
A brisa lavada da chuva
Acalentando esperanças
Nas mãos calejadas do lavrador;
A terra brotando
Apesar da política agrícola;
O fascínio por terras distantes
E estranhas
Brilhando o olho de criança;
Gente aprendendo
Apesar da política educacional;
O poema brotando em setembro,
Tísico, necessitando cuidados,
Um quase não-poema;
Poesia,
Apesar da política da urgência,
Mas jogue fora 
Tudo aquilo que o poema
Não pode me trazer.

sexta-feira, 20 de abril de 2018

FATHER

I hate to use to live
With this monster
Of Revolt and Pain
Inside of me.

I hate all the things
That don't bring
You back.

GAIOLAS

Asas mofam na gaveta
Fechada da memória
E anjos esperam
A gravidez indesejada,
O fruto de uma vida
Vivida de segunda mão,
O fim do mês,
O sorriso perdido,
Tudo aquilo parido sem escolha
E na cela
A janela cochicha às paredes
O assustador azul do céu
No dia de sol.

NÃO SEI DANÇAR



Desejo,
Beijo abortado
E o corpo etéreo
Flutua,
Pluma roçando
Os pés chumbados.
Até poderia ser tristeza se,
Na cidade passageira,
Tudo não fosse besteira
E delicadeza.

                                                22/04/01

sexta-feira, 13 de abril de 2018

CONJUGAÇÃO

O presente
Bêbado de passado,
Vomita no escuro
O futuro.

PASSATEMPO

Tempo,
No grego
Cronos -
Um titã descomunal
Devorando filhos.

"O tempo é o nascimento
O crescimento, o envelhecimento
E a morte
De tudo aquilo que existe."

Quando é ruim
Demora pra passar,
Mas quando é bom
Passa rápido.

E=m.c²
Mas o melhor
Vem depois e dobrado.

REMEMBERING

Na tarde lavada pela chuva
A cidade molhada foi espelho
E o poeta andou no céu,
Catou bitucas na calçada
Passou pela fome e se viu,
No alto de seus sapatos surrados
Poeta.

A dor perdida no tempo
Foi a alma arrancada
Da carne,
Um amor dormente
Sob a tosca cicatriz,
Um desatino
Esquecido de porquê.

MINHA CASA

Vou estar nessa casa.
Procure pelo mundo
Os meus rastros,
As coisas esquecidas
E gastas.
A vida veio comigo
Aqui pedir alento.

Cumprimento a alma
De quando saí.

sexta-feira, 6 de abril de 2018

ROCK N' ROLL

O rock n' roll me deu
Esta falta de medo
E estes olhos
De ver de verdade,
Às vezes dádiva,
Às vezes maldição
Mas sempre
A falta que se basta,
A sede em meio à chuva
E a pedra no sapato -

A memória
De pés descalços.

BALANÇO

Tudo se assenta
Nesse cair de tarde.
Velhos amigos repousam
No confortável veludo
De minha mente.
Lá fora é um bater cabeça,
Um dar murro
Em ponta de faca
Mas a lembrança
Acumula amores
E os contará,
Com juros, dividendos
E correção monetária
A especulantes netos.

CÍCLICA

A cada primavera
A poesia
Florindo se esmera.

Vida eterna?! Pra quê?
Senão pra ver
Cem bilhões de entardecer.

CONTO DE FADAS

Só quem percebeu
Na lua olhar
É que sabe
Da noite a alma.

E minha princesa
Tem olho de lua:
Um castanho-amêndoa
Onde meus dias
De labuta
Encontram acalanto.