sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

SIGNO


Os penhascos do inverno,
A placidez garoando
Milenares conspirações
Aos galhos áridos -
As chagas na madrugada.
Virão, das infindáveis plagas,
Trotando um soturno cavalgar,
Os reis pagãos.
As flores curvarão
Às estrelas pretas,
Enquanto os homens dormem
Seu último digladiar,
Adornando as estacas
Rumo ao salto
Dos seus sonhos -
Um cortejo cinza
Risca o sol de sangue
No fumo esquecido
Das tochas:
As brasas frias e 
Hiperbóreos anseios.



BRINCADEIRA


Não há pedra que não
Seja flor e
Não há flor
Longe de espinho,
Depois de Rosa.

ESCRITA


Talvez mundo fosse flor
Passada e colhida;
Dor
De criança crescida;
Estrada
De fome e abraço
Na chegada;
Talvez mundo nasça
Só de carinho,
De sobrinhos,
Netos e avós
E as carroças,
Os tapetes,
Os trens
E os aviões
Serão,
No diamanhã,
Ilusão
Na ponta do lápis
Sangrando do porvir
Vida vivida,
Chaga dormida
Apontando luz
No rude do grafite:
Os caminhos
Engatinhando as crianças.

O MINISTÉRIO DA SAÚDE ADVERTE:


Se acaso deixares
Um fumante sozinho
Não voltes sem avisar -
Eles são os que menos aproveitam
Das companhias,
Pois têm amigos invisíveis
Que se vestem de fumaça.

SANTO DE CASA


Minha cidade levou longe
O amor que eu amava perto -
Não há de ser nada -
Meu amor já estava certo.





CANTIGA DE NINAR


Dorme longe menino,
Enquanto o sonho não vem,
No fechar de olhos moleque
As estrelas se veem bem,

Se um piscar dormindo
Todo o céu assustar
E as estrelas forem embora,
Só foi o vento lá fora,

Que chora
Pra poder entrar
E ter estrelas contigo
E contigo não sonhar.






sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

THE WATCHMEN


Depois de velar-me
Da morte-Marte
De teus alvéolos,
Um dia,
Mesmo que caia
Toda a água
De tua eterna
Ogiva,
Lá no fundo,
Os meus olhos
Serão marés
Imemoriais,
Perpassando o teu
Ventre
No vento
Dos anéis de Saturno.

PSEUDO-POÉTICA III


Crio poesia
Na bacia das almas -
Crio vadio
A mentira calma
De covarde latente -
E os cães abanam
O rabo
Enquanto a caravana
Passa.

Mentira de absinto -
Calo-me ao sentir
Que nada sinto
Sabendo razão
No que a mim
Minto?

DA SABEDORIA


Os anjos
Às vezes sabem
O que se passa
Com você;
Eu, por outro lado,
Sou a ignorância sabida
De Édipo
E de Cristo.

Se tivesse uma flor
Te dava
E se fosse diabo
Tua alma
Seria carrinho
De rolimã.

Só sou um bruxo
Velho
Que esqueceu das vassouras
Quando a casa
Ficou maior
Que não dava
Pra ver a porta.

Hoje,
Um pouco de mim
É você
E o resto,
Uns discos do Dylan:
Nunca fui bom de referência
E da última vez
Que a estrela caiu
Quis um sorriso,
Bobo,
Que sou.

Da outra vez,
Prometo
Não esquecer
Uma Maria
Enquanto outras
Duas
Voam -
Um sabiá
Na laranjeira
E a lua torta
Com vontade
De chover.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

THE WATCHMEN II

                                                                               "Nobody feels any pain
                                                                                Tonight as I stand inside the rain..."
                                                                                          
                                                                                                                        Bob Dylan

A chance de fluir junto ao fedor,
Através dos buracos nas meias
E dissolver, no suave escuro,
Desligando todos os estéreos.

Mas não! A América vela por seus filhos.
Eles precisam pastar os escarros
E os excrementos, esbaldados
Em latões enferrujados nos becos e esquinas

- A mesa posta na América!

Pagando a lerdas prestações
O preço da integridade -
Um lacaio, levando no ombro leproso
A cruz de Prometeu -, sem culpa.

Cães sarnentos, caranguejos,
Cânceres, úteros inseminados
Em navalhas cegas -
A piedade desdentada baixando guarda -

O membro voraz e ereto de Nosso Senhor.

A ferida comendo a América
Em meio ao resto de tesão
Nas pernas, abertas e nuas,
Entre lençóis sifilíticos e vivos -

Dez dólares desmembrando a vagina da América!

Todos os vermes da América
Ricocheteiam na malha branca e preta
Do abismo surreal, na ponta do nariz
E carcomem a sobra da razão -

Enquanto corvos esperam a cirrose mal-passada.

A chance de esvair-se, furtivamente,
Do sonho da América e cair
Por trompas de acrílico, grafites e dejetos
Antes, bem antes dos tempos -

Fetos saudáveis flamejando o asfalto da América!

PENDÊNCIA


Deixo para amanhã
Minha mais nobre poesia.
Hoje, a vida foi visitar um amigo
E, talvez volte no raiar do dia.

Venha em riso de sobrinho,
Em carinho-saudade namorada.
A sabedoria tonta da beleza
É pedra escondida noutra cor,

Se for achada -
Poesia de desejo
Em cadente madrugada
Dos roubados beijos.

NÁUFRAGO


Parto
De coração
Enquanto o inverno
Chega perto.

                               Penso
                               Se existe passo
                               No abraço
                               Do teu ritmo de aço.

Desabraço
Forjando tardes
Num compasso
Teu irmão.

Mesmo em todas
As facas do vento,
Um dia,
Uma história
Será alento
À carne exposta,

                               Esperando fel
                               Como resposta.

Um dia
A água será troféu
Em fios rubi
Às bordas 
Das calmarias.

sábado, 10 de dezembro de 2016

O EVANGELHO SEGUNDO A VERDADE (Versículo Quatro)


         - Tenho um relógio e ele não me deixa esquecer a vida, sorvida nos balcões, nos corações de todo o mundo entornado em copos e garrafas. A filosofia que não sei me acorda cedo, no medo do ladrão, na contramão da rua única à minha casa. Atrás do portão há uma grama onde trabalham formigas e eu nunca presto atenção...

Eis que então
A luz fez-se clarão,
Clarão bonito mesmo!
Mas clarão, só por clarão,
Não matou a satisfação
Que já havia, antes da estrelaria
Romper em torresmo,
Um arroto aguardente
De tão clarividente.

TINTA NO ESPELHO


Esta pretensão de escrever,
Tentar sujar papel com prosa,
Mostra alguma coisa
Torta no céu,
Cai em mim
Não no papel.

Este tentar pintar conversa
É lembrar brilho de olho -
Sem segredo
E, às vezes,
Topada de rua;

Pique-esconde de lápis,
Borboletas de amarelas
Redes belas,
Mísseis de Bagdá
E luas novas:
Quem viver verá.

Mas
Por mais que se derrame
O vaso sente uma sede!
Papel higiênico - língua de parede -,
Hoje a Cuca vem pegar.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

TOADA


          Depois de inventar um novo grito,
          Deixarei minhas rédeas ao vento
          Para ouvir teus pés de granito
          Andando brumas ternas, no momento,

Tanto tempo sangrando vinho
E morrendo gargantas aos espinhos;
Levando sonhos de escadas nos cabelos,
Deixando aos pinhos o apelo.

          Pernas tristes, da sacada,
          Choram a metade da colina.
          Pra lá, lembrando seios de menina,   
          Sombras de cumes apontam estrada.

Num mundo velho sem porteiras
Beijos de orvalho e poeira
Violentam a chegada.

    

DESCASO


Joguei meus amores ao vento
Em versos displicentes.
Em vão, agora espero
Que eles batam em toda gente.

Devolva meus livros.

Aprendi na estrada madrasta,
Só, a saber de mim
Beijando cheiro de capim
Uma dor é o quanto basta.

DESPEITO


A moça entregou a sorte
Às mãos que barganharam
A alma com o diabo -
Nas mãos logo de quem!

Depois ficou, feito colibri
Tentando entreter a carne
Aqui, acolá.
Mas, de repente,
As mãos
- Haveria uma feição
Nas mãos?
Coisa do capeta:
Feição assim que se desfaz!
Voar atrás,
Como?! Se a moça via visgo
Por tudo quanto era mãos.

Não naquelas onde voava sua sorte.

sábado, 3 de dezembro de 2016

TANTO TEMPO NA TERRA


Tanto tempo na Terra
Que o velho se fez criança
E secaram-se os caminhos,
Então, Deus se desesperou
Do altivo de sua lei
E o paraíso sucumbiu-se
Por ser alto.



BEATNIK


Uma espontaneidade beat
Bate de frente,
No revoar das borboletas,
No efêmero surto das
Súbitas felicidades,
Quando todas as pontes 
Do mundo encerram-se
E abre-se a mais nova,
Conhecida,
No caminho de casa;
É certo que pedra não tem asa,
Mas não ligo.

BOCA DA NOITE


Cai na noite
Tão cansada
Como se fosse dia
Chegando da noitada.

Raia o dia
Tão brilhante
Como se fosse noite
Adornada de diamante.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

FACEIRA


Meu chapéu de caboclo
Tem raio de sol assustado
Em saber teus olhos grandes
De um jeito malcriado.

E o susto é coisa rara.
Não há reza que dê jeito
A um céu engaiolando
Passarinhos tão perfeitos.

Três brasas no copo d'água
E só uma foi ao fundo.
Hoje o céu tem mais estrelas,
Hoje sou mais vagabundo.

Mas vagabundo conformado
Em sonhar, num voo, à noite,
Esses teus olhos, ao vento
Tendo um corpo bem pelado,

Que, de dia de pirraça,
Baila distante bailado
Amargando meu pecado
Que nem gole de cachaça.







TELHADO DE REZA CINZA


Uma flor passeia
No meio da rua:

O asfalto pinta chuva
De sol pálido,
Rústico,
Encortinando
Sonhos
Nas vidraças oblíquas
À exata tempestade.

O nome disso é saudade;
A vida disso é maldade;
Os dentes enluam cidades;
Menina, é só amizade?

Uma flor passeia
No meio da vida alheia
Sem dó,
Nem vontade de ir
Pra casa:

No meio dos umbigos
De espinho
A rosa cospe asa
Com cuidado de 
Passarinho...



A AURA


No meio da escada,
Paro,
E escuto
Um longínquo amor
Perpassando
Suave, os degraus
E me encontrando
Dois lances adiante,
Ao revoar das folhas
Dos livros antigos.

sábado, 26 de novembro de 2016

ILUMINAÇÃO


Dia após dia
Sabendo querer das coisas
O que as coisas podem
E exatamente
O que podem
É o caminho -
Para frente
Ou para trás:
O que vai ser
Será sempre
Porque sempre
Esteve lá,
Tão claro
Que a gente
Tem pudor em pegar
E esquecendo
Vai sendo,
Sendo, 
Rendo-me
A reconhecer
Minha fuga
E beijar-te
O cheiro de ontem
E encontrar-me
Fumaça
Em nossos pedaços
Esquecidos nos cantos:
Nos campos esqueço-te
E rio desconcertadamente
Da mentira
Esquecendo-se
Crescendo-se
Escrevendo-se
E se ninando
Pra sonhar-se
Verdade.

QUER SABER QUAL É MINHA ESTRADA?


Quer saber qual é minha estrada?
É a mesma que andas
De teu lado.
Por que procurar em mim
Pontos finais,
Ver minhas vísceras de novo?
Meu fígado e meu pulmão?
Meu coração não te interessa
Paixão fingida?
Feche teus olhos
No caminho do arco-íris
Que esqueci faz tempo.
Nuvens e chuva
Não era mesmo
O desejo feito
De salas enxutas
E ar condicionado,
Não é?
E você ainda quer saber
Qual é minha estrada...

DAMA & CELLO


Só assim,
Os olhos hão de entender
A música entre tuas pernas:

Grave nota
Encaracolando as bordas do abismo
Emoldurado em anqueada semifusa -

Molhada languidez
Arqueando gravemente o umbigo
Quando só sobra poesia
E alma fria,

Bebendo acalanto eterno,
No canto,
De castigo.

sexta-feira, 25 de novembro de 2016

POESIA NA GAIOLA


Poesia na gaiola,
Canarinho no sertão;
Os dedos na viola
E a estrada no coração.

Vou-me embora pra Pasárgada,
Lá sou amigo do rei
E conheço Manuel Bandeira.

AION


Minha vida
É uma poesia esquecida,
Vida vadia
Acalentando-se
Em haver.

Guarde estas flores
Da madrugada
Aos sonhos
Do teu passado.

À entrada do matagal
Paramos -
Receio de anseios
Tão distantes
Misturando-se ao verde.

sábado, 19 de novembro de 2016

MENINAS


A flor mais bonita
Fugiu do coração
Sangrando orvalho
Na alvorada.

Sentiu estrada
Sem agasalho
No grave violão
A flor mais bonita.

O sol de quebradas folhas
Torce o hálito
Emprumando sutis tragédias,
Entornando Amélias,
Embrumando Franciscas,
Prometendo Fernandas,
Elianes,
Cirandas,
Anas,
Anos,
Facas,
Rugas,
Fugas,
E as inconsequências
Dos cansados pigarros,
Nos peitos pisoteados
Por encantados
Carnavais.

CANTIGA DAS LAVADEIRAS NO RIO


Esfrega o ardor da labuta
Que o rio carrega,
Esfrega.

Esfrega o sossego que a noite
Sorrindo lhe entrega,
Esfrega.

Esfrega 
O carvão da mão do teu homem,
Esfrega,
O que é do homem
O bicho não come,
Esfrega
Que o rio carrega.

Esfrega
A espuma no leito
Que o rio sabe ninar.
Esfrega 
A nuvem no olho
Pro filho não mais chorar.
Esfrega 
Que o rio carrega.

Esfrega o lençol
Que o sol não tarda deitar
E o rio carrega.

Esfrega o arrebol
Que a vida não tarda chamar
E o rio carrega.

COCAINE BLUES


Tristeza batendo,
Batendo
Na porta.
A razão
De minha alma
Morta.
Só tristeza
Batendo,
Batendo,
Batendo
Na porta
E,
Lá fora
A vida
É que me entorta.

segunda-feira, 14 de novembro de 2016

BILHETE


De certo,
O que ficou
Foi uma tarde de domingo
E, junto com um sol pálido,
Possibilidades de suspiros,
De beijos,
De novas saudades
Em dias de chuva;
Possibilidades
De termos mãos desgovernadas
De nossas cabeças vilãs.
Temos um coração?
Não sei.

Mas ficou também
Uma música que não dancei contigo -
Você certamente
Fecharia os olhos
Num semi-sorriso
De minhas bobeiras -
E, também,
O passarinho
Que não veremos
Da mesma janela.

De que serve as horas
De apelidos bobos
Quando a seriedade cerca?
Cada um na sua - como pode?

E ainda,
Ficam fotografias não dadas,
Esses versos rotos -
Amor quase-perfeito -: coisas de fundo de gaveta.

Nossa menina
Fica para a próxima,
Quando eu acreditar
Que sorrisos usam dentadura
E cuspir com mais cuidado.

DÍSTICO BUROCRÁTICO


Minha alma tem endereço certo
Embora encante-se a céu aberto.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

FELICIDADE


Felicidade
Não se traz em balde
De se buscar na fonte?

Felicidade
Às vezes é vaidade
De se ver tão longe?

Cansado de estrada?
Querendo água parada?
Exigindo meu perdão?

Levando noite surrada?
Grande e de costas marcadas?
Pequeno de coração?

"UM LUGAR NO MUNDO"


Seus sapatos perdidos no caminho,
Enquanto a lama e a poeira,
Nos meus olhos, tremem um novo gosto.
As pedras têm a loucura desvairada
De todas as cabeças pardas, 
No meio de uma chuva de inverno.
Talvez, quando a madrugada apontar manhã, 
Um beijo de menina abra fendas,
Então, eu e um cachorro comecemos
A brincar um jogo, mais dele que meu -

Talvez, tenhamos sorte
Em uma grande paixão
À toa, na nossa preguiça -:
Um arco estirado
Num opaco mar.

AMAZONA


Cheira ao vento anteontem
O odor das espigas dos trigais,
Libertos de negras tranças.

Criança não se repreenderia
Vislumbrando uma possível tempestade
Circulando-indo-e-vindo,
Chuva dançarina mijada
Da nuvem preta
E descendo, riso de menina,
Num escorregador,
Pelo dorso, até as ancas -

Lá embaixo, só um chumaço
Induzirá um furacão
Convidando folhas
À ciranda nas nuvens.

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

NOCTÂMBULO


Torto,
Na noite,
Dispo-me das penas
E dos meus papéis e
Caminho nu
Entre nossos verbos
Conjulgados,
Envergonhado
Por pensar palavras,
Esqueço
E fecho a porta
Pra nascer teu quarto -
Vou andar por um
Planeta
Sem cama
E Deus sem coração
Não vomitará estrelas.
Agora
São tuas
Estas mal traçadas
Linhas
Que nunca
Foram minhas.

DESMAZELO


Demente,
Ditando à chuva
O meu legado,
O rosto cansado,
As brigas com o tempo.
A imutabilidade
De tuas pernas;
Teus mais secretos pelos -
Teus zelos.
No breve filme
Em teu último juízo,
Um avô meio moleque,
Surrado,
De poeira nos óculos,
Torto no bêbado
De tantas tramas,
Suscita
Um teu derradeiro
Cuidado.

PAIXÃO DE PESCADOR


Paixão de pescador é assim mesmo,
Não avisa de que lado vem
E pode roubar a isca,
Mas é paixão.
É assim feito paixão de morcego -
Amor cego.
Pode sair no meio da noite,
Mas fica música no rastro,
Agora,
Pior mesmo
É matar a música.

Paixão de pescador
É entardecer na enseada,
Onde a música das marés
Desnuda a morte
Ao toque sutil do sol
Nas bundas das ondas.

sábado, 29 de outubro de 2016

ESFEROGRAFIA


Tentei arrancar do papel
Algo que suspeitava estar em mim.
Senti-me, de repente, esvaindo:

Poderia eu ter sangue azul?

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

UM AINDA CHEIRO TEU


Um ainda cheiro teu
Em outros soutiens -
Cheiro moreno de flor forte -
E outros lábios de romã
Ainda teus.
Meio crianças
Não entendemos de morte
E de seus lugares escondidos
Em outras pernas e outros peitos,
Ainda namoramos.

PARA QUINTANA (Sem O Ter Conhecido)


Quintal
E pai distante,
Cama e relento,
Rosa de distante perfume
E de vento
Mais que espinho,
Quintana por Quintana
E caminho - encruzilhada -
Até o dia.

ECO DA CANÇÃO DO MARTELO


Poderia falar de facas,
De vontade de chorar,
De um amor escondido,
Esperando sua vez,
Mas, hoje, a caneta está moribunda,
Num torpor febril de maleita:
Febre fria e muita vontade de descanso.

Desejo muito, moça,
Que enfies o que sobrou
De um grande amor
Na latrina,
Já que teu olho, agora,
Brilha enamoro
De vitrina.


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

SOLITUDE


- O que fazem todas essas pessoas,
Sentadas, na beira da estrada? -
Perguntou o vendedor de livros
À sua sombra.
- Como? Não sabes?
Ontem mesmo passaram à tua porta
E lhe perguntaram qual o lado
Onde brilhava o sol -
Replicou a sombra
Ao vendedor de livros.
- Não tenho respostas pra tudo,
No entanto, olham-me
Decepcionadas -
Desculpou-se o vendedor de livros
À sua sombra.
- Mandaste seguirem o vento,
Apenas isto. Não te olham decepcionadas:
Olham, em você, o vazio
De terem pernas próprias -
Consolou a sombra, enquanto
Uma imensa nuvem negra
Desolava, na beira da estrada,
O vendedor de livros.

FLAGRANTE


Crio a saudade menina
De ver
Teu maroto aguachar
Desmazelo a embaraçar
Líquidos cabelos -
Pelos sutis -
Liquefeita mulher.

Na janela do espelho
Ouriços anis
Ao sol do chuveiro.
Degelado beijo
Azulejo.

SOB O CÉU


Venha menina,
Ver o que secou da primavera
E o vento não levou.
Abra, também,
Teus olhos
Já que no buraco onde escondemos
Todo o longe fica perto e,
No azul do céu que é teu
Mora, junto, meu deserto.

De que importa saber da fome
Mordendo o calcanhar
E rostos sem olhos
Chorando um grito,
Morto no portão? -

Tem dono o meu e o teu coração.

De que importa saber da fome
Quando, na mais podre e negra miséria,
A boca ainda come?
- Nosso céu de carvão.

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

HYPNOS


Daqui a pouco
O sono vai cobrir a casa
E o soluço do mundo,
Oco - melodia esquecida -
E pouco,
Vai, de tarde
E arroto,
Escalar teias de aranha
Onde canetas
E rascunhos desleixados
Engoliram,
Em blues,
O tudo.

INVERNO


Vou me ver
Onde eu e você
Já não mais brincamos:
Isso parece coisa de velho:
Ficar procurando olhares em todo canto -
Seria isso meu avô,
Em dias de outono,
Quentando sol
Na sua cadeira?

A lógica infantil de grego -
O sol há de trazer
As velhas histórias 
No seu velho jeito de teimoso -:
Compadres do sol?

Eu e você já não somos
Mais eu e você
E contentamos
Em procurar sobras -
Pedaços de histórias
Em falta de convicção
Enganando a razão -:

A sem-vergonhice
De menina envergonhada
Pega sem vestido.

PASSEIO


Andando no pasto,
À tardinha,
Encontrei uma poesia
Não minha.
Juro que pensei
Em dividi-la
Contigo.
Envergonhei-me
Ao vê-la fugir, linda,
No voo de uma andorinha.

Não há nada a te levar,
A não ser algumas penas.
Talvez um choro a ensaiar
Em troca do teu poema.

Brindei minha alma ao diabo.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

CEMITÉRIO DE AVIÕES


Uma coisa o céu disse
E eu não ouvi.
Você também não.
Já faz algum tempo
Que nós não somos
Mais atenciosos, não é?
Não temos mais visto e,
Porém,
Estamos tentando -
Outras salivas
Que não as de
Cigarro apressado.
Outras mortes.
Esta nossa mania de querer,
De simplesmente.
Algumas flores
Jogadas no vento.
Pra que tanto perfume vão?
Não temos mais
Jeito com rosas.
Esquecemos como se é forte.

Outro dia é tudo.
O sol, a alma rasa,
Casa de anteontem,
Destelhada -
Todo o concreto
De não ter chão -
O inferno.
Nosso demônio banguela,
De sorriso amarelo,
A estrada de depois...
Vamos chorar nossa vontade
Escondida de orgulho.
Outras pernas,
As mesmas penas,
Cachorros pitocos
Em frente ao dono -
Um mar,
Depois da meia-noite,
Sem tubarão e água suja.

Daqui a pouco
A cegueira de ver
Um ao outro,
Nada que já não temos -
Treinamos com afinco
Quando a distância é pequena,
Mas ainda é.

Só sinto alguma coisa
Que não digo.
Você também
Não disse mais nada.
Tem um círculo
Quebrado em volta da terra:
Uma linha esquecida.
De repente,
Haverá um mar sobre nós
E estaremos longe
Da ilha de sol,
De gaivotas.
Esse negócio de história
Assusta!
Vão haver espelhos
E sempre haverá alguma coisa
Mais ou menos igual.
Talvez então a ilha,
Vivendo uma história requentada,
Não nossa.
Quem foi inventar a saudade?
Pura pretensão.

Mas sinto alguma coisa
Que não digo.
Depois dessa de telefone
Temos visto o diabo
Mais de perto.
No meio de nossa gente
Faminta,
Portas trancadas
E um seco de vinho
Escapando sem querer
Em fim de madrugada.
Haverá uma lua-cheia
E depois mínguas
E águas em janeiro,
Mas daí até a sede
Muitos camelos.
Olha lá o sol
Em cima da tua cabeça!
Eu tenho este peso.
Talvez, daqui a pouco,
Nem mais cabelos;
Talvez,
Muito na frente,
Ainda viva minha gente e,
Numa venda,
Lá quando era ontem -
Calabresas na parede,
Estórias de tarde -,
Entre um pouco de você
Pra levar sol
Quando você estiver em casa.
Pode ser que eu
Caia em mim,
Com mão enrugada
E um copo quase acabado -
Como pude ficar
Tão velho tão ontem
E nem esperar você crescer...
Pingas,
Minha gente
E estorias de fim de tarde.


BEATLES' 65


Tenho o tempo todo
Ao meu lado -
Num ardil de marceneiro
Posso forjar farpas
E lançá-las ao vento,
Viramundo enxerido
Abrindo e fechando portões
Aí fora, onde, 
Supostamente, 
Moras -
Não, não sou eu
Quem está chegando... -;
Posso farejar paixões traídas -
Ofício de cachorro desocupado:
Cadê o osso que estava aqui?
Ouvir músicas que,
Um dia, 
Repartiria contigo:
"Ontem o amor era um jogo
Fácil de se jogar,
Agora preciso de um lugar 
Pra me esconder".

Além de tudo
Estou aprendendo falar
Língua de livro de história -
Os sorrisos de meus irmãos
Rejuvenescidamente cansados,
Caminham a estrada,
Na qual,
Permaneço sentado:
"Será que alguém 
Irá ouvir a minha história?"


MESQUINHARIA


Afastem a vida de minhas mãos
Se não puder bater afagos,
Afagar socos,
Sufocar acenos,
Acenar afogos:

Âmago queimado
De rum e madrugada:
Nada, nada, nada
Além do inferno -
Diabos volverão atrás da porta
Dispensando perdão
E conclamando vida, vida,

Vida suja e mesquinha
Só minha, só minha, só minha:

Alfanjem minhas mãos -
Por último,
Entenderei de sangue e
Sarjeta
Embebidos de chão.

MARULHO


Um beijo de zarabatana,
Arquitetado,
Erra o alvo
Dos teus cabelos de sol
Numa beira de cais.
Rápido,
Depois de tudo passado,
Um choro de anzol
Tarde demais.

sábado, 1 de outubro de 2016

A CORTE


Quando você voar,
Solta, qual andorinha
Deixará, talvez sem querer,
Escapar raio de sol
Das asas, 
Prendendo,
Num rastro celeste,
O medo de meu reino.
Sem pudor, então,
Cochicharei estrelas.

NARCISO QUEBROU O ESPELHO


Borges nunca se leu.
Por quê?
Não é problema meu.

Eu, às vezes me leio
E, como em todo livro,
Diria é que me enleio.

INFERNO


Eu são os outros
Quando estou no breu.

Noutros hão eu
Velando a fé dos potros.

AS DÚVIDAS IRÃO EMBORA


As dúvidas irão embora,
Eu sei.
Pode até o sol nascer
Outra vez.
Estarei frio esperando o preço
Das promessas
Nas juras quebradas.

Suspeito que o mundo anda por aí
Sem me dar muita atenção.

sábado, 24 de setembro de 2016

VAGABUNDO


Vida, ah, a vida!
Às vezes vã,
Às vezes grande e,
De tanto, escapa
Ao sonho meu
Igual a uma perninha de rã
Passeando frente aos meus olhos
Antes de, nua,
Como os cachorros de Lázaro
Você lamber-me
As mazelas da rua.

FORRÓ


É engraçado como, só agora, percebo
O sentido anti-horário nos casais
Levados pelo insistente xote.

Sangue, suor e cervejas!

A fumaça dos cigarros
Comunga os acordes do acordeon
À cerração da madrugada:
Vésperas de inverno -
O frio inda será compadre
No presentear vassalos da velha noite
Com o sereno azul do céu
Na face dos rios?

Gim: dois reais e cinquenta centavos;
Vodka: dois reais e cinquenta centavos;
Whisky: cinco reais;
Conhaque: um real e setenta centavos.

Aqui não vendem cachaça!

Um casal se mistura na soturna
Vista do sisudo senhor.
O vendedor de flores chega até ele -
Breve será dia dos namorados:
- Apenas três reais!

Não. Aqui não tem amor nenhum.

Os aposentados recebem cento e doze reais ao mês
E o vigia noturno apita.

DISTÂNCIA


Longe o mundo
Levantando a fome
E as estrelas embelezando
O salão, 
Cortejando a festa.



OLHOS DESVENDADOS


Queime minhas cartas.
Evapore lágrimas escondidas
Na pena de um rei.

Já estou doente
Desde aquele inverno -
Lembras do fogo em meus cabelos,
Em chamas que tentei roubar
Das lenhas do bosque?

Fico sentado na orla
Escarpada -
Dama de espadas
No coração prateado,
Frigidamente encantado,
Em lunares aragens.

Um imenso poço
Margeia toda a existência -

Atire pérolas aos porcos,
Com cuidado,
Todos estarão olhando louros
Em sua fronte
Por sobre o balcão.

Queime tudo que puder
Ser letra minha -
Assim meu sangue
Beija estrelas -

Um dia o céu,
Quem sabe,
Possa chovê-las.

PROMETEU DESALENTADO


Hoje pensei escrever estrelas
Tendo em mente o fogo que apaga,
Para que sempre possam lê-las.
Descobri-me, da janela, numa chaga:
Melhor vê-las.

Da terra, podem os marujos criar um mar
De ofício ocular à maresia,
Eu, não marujo salutar,
Arrisco choro à estrelaria
Antes de deitar.



sexta-feira, 23 de setembro de 2016

SEDE


Ser-me-ia útil
A morte inconsequente
Dos amantes que têm fé.

Mas tenho, em brasa,
No meio da chuva,
Um poema entalado na garganta.

BNH


Um monte de casas
Brigando um atrito desleal -
A hélice titânico-avara,
Nas rodas do tempo
Saciando a fome.

Ah, esses casebres enganados
Comprando a preço errado
A lição escrita na cabeça,
Milenar,
Do monstro de papel
Lacaio dos homens:

- Há uma dignidade,
Lá fora,
Tapando os ouvidos
Ao tinir das moedas -
Gentes teimam
Entrar nas casas

Só entendendo dança
Da devassa.

ACALENTO


O menestrel sozinho na varanda
De um horizonte,
Cercado de tecidos medievais,
Respondendo a tantas e tantas miras -
Os falcões planando trigais.
Quase imperceptível, em tom amiúde,
Desenha-se o som de uma lira,
Sem chances de sonhar alaúdes.

DOR DE COTOVELO


Então
A garota quer
Segurar o mundo
De dentro de casa
Com quintal
E mexericos de vizinhas!

A felicidade
Bate à sua porta,
Então,
Atente-se ao receio
De companhias tortas.

Como?!
O mundo não é cor-de-rosa
Para abraçá-lo?
Foi você quem o bebeu
De menos.

Por fim,
Virá a satisfação
Em cuidar
De outras vidas.

ESTILHAÇOS


Quirera
É milho quebrado.
Quimera
É ah, quem me dera
Fosse meu outono
Tua primavera,

Mas tenho sono
E sonho acordado.

NAVALHAS LÍNGUAS


Navalhas línguas,
Quiçá,
Desdem Saturno
Fosse Cristo.
O salto no eterno
Da efemeridade
Das flores,
Essência queimada,
Incenso broto
Do murcho
Trepidante
Das primeiras pernas.

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

JÁ NÃO MORRO MAIS


Já não morro mais
E, no entanto,
Fazem dias tão lindos.
Sentado no topo do meu mundo,
Tantas águas passaram
E tenho olhos secos,
Hoje,
Numa época
Em que chove tanto.
Já não morro mais
E, no entanto,
Não passeio mais
Sem guarda-chuva.

1º DE MAIO


Diz o rádio que foi em 1887:
Um trabalhador morto durante uma manifestação
Na América do Norte.
Diga, também, sr. Rádio, sobre os
Desvalidos,
Os mutilados,
Os esgotados que,
Incógnitos, não puderam lavar as mãos
No bálsamo da posteridade -
Os mártires de todo dia.

O LOBO


Oscilo
Entre o beijo vulgar
E a mais nobre paixão,
No sono desesperado
De quem sabe
O fim
De um olho de lua -
Dormindo em pé
De olhos abertos,
Velando tédio
Com ternura,
Até que o fio de música
Escape feito remédio
Dos desertos
E seja só
O amor que sou -:
O grunhido elétrico,
Cósmico,
De infindáveis conjunções,
De tão alto,
Passa longe
E sereno.

sexta-feira, 9 de setembro de 2016

SURFISTA DE PRATA


Vem-me à mente
Um perdido cosmos
Onipotente,
Lá onde mora,
Quieto,
O piscar dos vãos
E deus não é fim,
Nem máscara,
Só coração.

CORADO


Pensei-me 
Contando a você
Um segredo
Meu.
Quando vi-me,
Sem segredo,
À sua frente
Envergonhei-me
Em saber o
Quanto
Você já o sabia.

As rosas repetem a mesma
Cor noutra primavera.

CORUJA


Os olhos contam tudo
E não escolhem hora.
Provavelmente agora
Esqueçam quanto foram nudos.

A menina desenha,
No espaço, um balé
Esquecendo, lá na frente,
Um olhar de marcha-a-ré:

Insensatez profunda
Fundamente prometida
Em trazer, pra toda a vida,
Um olhar que fosse bunda.

segunda-feira, 5 de setembro de 2016

TEDDY


Sua falta está em todo lugar
Onde você costumava estar.
Como pode 
Pequenos rastros na parede
Pisarem tão fundo?

Uma tristeza maior que o mundo.

Batendo fundo,
Um coração pequeno
Querendo desatar
O nó na garganta.

Não adianta mais esperar -

Você não sai daqui 
E não vai mais voltar.

                                                  

sábado, 3 de setembro de 2016

RABELAIS


O necrófilo bate à porta
Horizontal, com um verme
Na garganta
E despoja-se do mundo,
Encontrando-se no ventre,
Carcomido,
Nu e masturbando-se
De riso
Até gerar filhos
Pela força.

Todos sentem o mal da vergonha
Menos o cachorro e o poste
Numa dança de chuva
E orquídeas.

PARADOXALMENTE BLUES


Façam o que quiser
De mim.
Já sou porta,
Aberta,
Chaga de não ter fim.

Minha dor?!

A quem importa
Choramingos de amor
Quando roncos de barriga
Trovejam ao redor
Da frase morta?

Morro da fome
Em matar a fome
Nas almas analfabetas
De sangue e sabor. 

CHULÉ


O romper da corrente,
O desespero maior
Que o mundo -

Viver a vida
Como se tudo
Coubesse
Num pedaço
De domingo -

E do sentimento
Não guardar
Ressentimento
Algum -

Se não for pra ser
Do meu jeito,
Que seja
De jeito nenhum.

LAMPIÃO


Lampião
Fugiu de casa
Pro sertão,
Ver a vida
Na caatinga:
O sonho pesado,
No mormaço,
Finda
Em peso de aço,
O pulmão -
Um claro
Em Angicos:
Deus rasgando
Da carne
Os facões,
Os cinturões,
E o menino
Correndo
A inocência
De volta ao ninho,
Entendendo pouco,
Muito pouco,
Rindo bêbado
E devagarzinho.

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

TRUCO


Cravos pintados na parede,
Nos quadros,
As irmandades
Das sombras tortas
E os meus beijos,
Acelerando milhões
De centopeias
Sobre tantos olhos
De um infindável desfiladeiro.

Caindo e levantando,
O mundo nas botas,
Cartas,
Coringas
E o ladrão cheirando
A casaco antigo,
Sabendo
Onde ficou esquecido
Um verdadeiro ouro.

A liga das terras roxas,
Malas,
Carabinas,
Zarabatanas
Enfartando tocaias atrasadas,
Cientes nos olhos de mau
Das figueiras.

Rudez e máscara de chumbo
Coagulando
Poeira -
Curvas, curvas, curvas...
Porteira
E os relógios
Ainda funcionando,
Lembrando a sala.

ARIANE


Verei uma estranha madrugada
Em andrajos enfestados
Aos olhos desalmados,
Dilatados de entranhas.

Verei uma estranha madrugada
Cansada de ser nova,
Esperando onde se mova
Tudo o que já foi estrada.

Verei uma estranha madrugada
Nos andrajos, induzindo
Um ócio reluzindo
Em vista súbita, esperada.

TOADA VAGABUNDA


Toco o violão
Como se tirasse
Leite das pedras
Para lavar teus olhos,
Beat redomão de locomotiva,
À deriva, morro abaixo,
Morro bastante minha vida
E me encaixo
No bolso vazio
Onde ecoam moedas
Falsas, falsas risadas
De um mundo amarelo -
Moças envaidecidas
Em andrajos paraguaios
Querem casar,
Ter filhos
E pratos para lavar.

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

RUA DO CARVÃO


Deus, por favor, não dê contas
Da sujeira que fizeste
Lá na Rua do Carvão
Tanta gente que trabalha
Pra comprar desnutrição
E cantar em rima pobre,
Dessas que terminam em ão.

PALHAÇO NA CORDA BAMBA EM DIA DE CHUVA E SABÃO


Agora que o trem passou
E a estrada outra vez,
Ninguém mais vai fazer
O que você me fez...

                 Tenho uma arma
                 De carne estragada,
                 Aprendi-a dos livros
                 E da beira da estrada...

Seu olho é forte
E meus nervos nada estáveis:
Desastre de avião.

TEMA PARA BOLERO


Um dia
Disse teu meu coração,
Você não compreendeu...
Decerto o devolveu!
Não queria nada na mão!

Um dia,
Meu peito doeu.
Louco arranquei meu coração
Pra ver de perto o amor que me doía.

Louco, meu amor apodrecia.

sábado, 13 de agosto de 2016

O EVANGELHO SEGUNDO A VERDADE (Versículo Cinco)


Tantas chances
Quantas tiver
Vou revirar a cabeça
Do mundo sobre a minha.

É certo que o peito é brasa
E a alma rasa
Inflama

O jeito de quem ama.

Quantas chances tiver
Os pescadores de alma,
Abanando as mãos,
Voltam pra casa --
Você, no sonho,
Viajava léguas
Buscando-me a perfeição:

Um dia,
Parei pra chorar
E todos os vasos
De meu jardim
Floriam saudades:

Meu peito, então,
Subiu à cabeça,
Deixando lá embaixo
O coração,
Povoado de peixes
Dançando livres
As correntes do rio --

Ah, como tentei segurar teus riso!

ITINERANTE


Cheiro de diesel e beijo
No fundo do peito.

          Ao longe um menino
          Correndo, sonhando uma pipa.

Talvez estrada seja mesmo castigo,

          Ou somente vício.

"HISTORINHA"


Um poeta, um dia, 
Encontrou a lua na beira da 
Estrada --
Chorou sem saber porque
E depois parou -- e
Seguiu seu caminho,
Ao contrário
Do lado em que a lua entrou.
Sentiu ser poeta,
Se não pequeno,
Longe.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

INQUIETUDE


Já sou tudo isso
Jogado fora.
Tudo isso que agora
Me dói
O sangue de outrora.

Caminha-me, em vias
Descongestionadas
Alcateias desencontradas
Que roem
A leseira lancinada.

ROSETA, 12:35


Um poema cantava a poeira
Vermelha vergonha:

Os pés da menina
Pareciam anjos esquecidos

De um perdido carnaval.

Não se preocupe, morena,
A cidade é pequena:

Dá pra ver o mundo,
Por cima do canavial,

Profundo.


CHUVA EM MARÇO


Chove lá fora
E de que serve a chuva
Senão
À secura do meu coração?

Nos idos anos em que tinha paciência
Engenharia um barquinho de papel
Na enxurrada -
Ah, corajosa e livre ciência!

Hoje a chuva encharca meu coração, mais nada!

sábado, 6 de agosto de 2016

TRANSCENDÊNCIA


Há tempos, não sinto o cheiro
Dos teus negros cabelos,
O cheiro de dias, por lavar...
Dos teus dias
E de, talvez,
Eu embaraçado nos cachos:
Há tempos - os meus dias
Indo embora dos teus -
Uma cruz à traição
Nuns dias de fumaça,
Mais que sol.

Teus cabelos
Vão estar do mesmo jeito
De pontas esquecidas,
Há tempos.

O EVANGELHO SEGUNDO A VERDADE (Versículo Seis)


O que importa, pai,
É o preço da sede
Que me trouxe aqui.
Engolir o mundo
Num gosto de fel
Esperando de sobremesa,
O céu.

O que importa, pai,
É abrir a porta
E pagar o preço
Apagando a sede
Nesta alma torta.

O que importa, pai,
É o desespero que cai!

AUTO-CONSOLO


Nada de amizades
Nem piedades...
Quero vaidades.

Se murcham flores
Por que não amores?

Dionísio defronte ao caos e,
Mais que nunca,
O belo faz-se  essencial.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

MERCÚRIO


Em minha alma dorme
A sombra disforme
Dos meus passos.
Caminho a esmo
Sabendo de mim mesmo
Um mar de sargaços.
Todos os meus rastros
Estão na areia
Em paixões-alabastro:

Falta de sentimentos?
Fazer o que
Se os bustos de areia
Não suportam ventos.

ADÁGIO PROVINCIANO


O pulmão inveterado desenvolveu,
Às próprias custas,
A teoria da imortalidade do cheiro
Baseando-se no frasco vazio
De leite hidratante Davene -

As tardes passaram a recender
Cabelos molhados
Passeando em sandálias havaianas.

RECLAMES


Estou esperando carinhos
No vento áspero e tosco
Leste de setembro.

Notícias vêm da capital -
Falas arrancadas à força
Nas línguas magras,
Nos dentes podres,
No beiço,
Surrealmente torto,
De tão lindo
Na menina dos olhos
De meu coração.

Afeto quente
Sem pasta de dente
Navegando longe do tormento,
Calmaria em pensamento:

Minha pátria
Bem amada -
Aram meu quintal,
E como pensar o mal
Vendo contente
A mãe gentil,
Desovando percevejos
Pintando sobras
Em pratos raros,
Afagando a bunda
Das empregadas.

quinta-feira, 4 de agosto de 2016

TODO


Te sentir
É pegar uma estrela com as mãos
E deixar
Outras caírem no chão,
Junto com o sentido
De não pisar todos os lugares.
Meu chão é tão pouco.

Tenho a geometria
De todo o teu lábio
E já decorei teus dentes, no decoro,
Aquele ponto em que acaba
Foge do foco.
Talvez o furo no queixo,
Só que suspenso no ar.
Alguma coisa falta.

Teu sentir
É vento desconhecido de passagem,
Deixando o toque
E se embrenhando na miragem,
Trazendo um quase-cheiro
E levando um
Quase pode ser a chave.

Toda a civilização irrompe do olho
Com ruínas, metafísicas e medos,
Eu, conexo no momento, contemplo
E morro.

DESLEIXO


Deixo tua mão falar minha história
E tua boca pensar meu gosto
E como tudo,
Em agosto, eu deixo,
Desleixo.
E que a história
Que eu possa contar
Tenha a benção
Dos avós
E a aura de um retorno
E que o mundo inteiro,
De mim,
Seja eu ao ouvi-la,
Sem fim
E morra Deus
No brejo
Do seu banho
Escondido -
Não temos mais caído
Pra beijar
Desvalidos, mas,
Não é tarde.

CÍRCULO


Longa saída
De beijos
Furtando espaço -
A morte trazendo
A reboque,
A vida.

Longa saída-
Caminho de carne
Arquejado
No todo
Caminho -

Diminuto universo
De tato tão grande.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

DESTEMOR


Sou forte
E sei de mim a morte
De todas as estrelas
Caídas,
Cercando meu quintal.

Encontre-me rápido,
Antes da noite escura
Descobrir irmã
Na alma minha.
Sou forte -
Por favor encontre-me logo
Antes de ir-me embora
O medo dos fantasmas.

sábado, 30 de julho de 2016

CHUVA-DE-MANGA


Anda por aí
Sem entender a poesia
Dos livros
E até sente vergonha
De se ver tão miserável,
Roubando o enamoro
Do céu, cheirando a terra,
Em meio aos campos
Esquecidos da cobiça.

Faça a apologia da descrença,
Amigo que crê mais que pensa.

Chuva, quando andas
Por estas bandas,
Diz mentiras de enxurrada.
Que tu tens rastro de cheiro
É sabido até por ribeiros,
Mas ninguém não fala nada.

POESIA REVISITADA


Deixe a chave na porta,
Pelo lado de fora:

Sempre me canso rápido
Dos meus passeios noturnos
E tenho muito medo do ladrão,
Que há em mim,
Se prender na incerteza
De encontrar a casa vazia.

Ah... e se não for pedir muito
Deixe a luz acesa,
A pena no tinteiro
E o cigarro sobre a mesa.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

O CAUSO MAL CONTADO DO CHICO MALUCO


Chico Maluco ganhou o mundo cedo.
Uns dizem que foi jogar bola no Mato Grosso
Onde conquistou uma cidadezinha, com o futebol, suas histórias
E sua viola,
Outros dizem que Chico Maluco conta muita mentira.
Talvez até tenha deixado lá muita saudade,
Outras histórias e a filha do prefeito
Apaixonada.
Vai saber...
Chico Maluco tinha sempre uma música nova
Que, de nova não tinha nada
E, atrás da música,
Tinha sempre uma história,
Então, a música era nova.
Gostava de trepar nas árvores,
Fumar
E contar umas mirondas
Que a gente gostava de acreditar,
Depois ponteava, ponteava...
Todas aquelas modas eram de Chico Maluco,
Simplesinhas, simplesinhas
Como ele dizia.
Chico Maluco deixou
Um monte de amigos pra trás,
Talvez só pra lembrá-los
Nas pescarias.
Sm dúvida,
Ele pescou o maior entre todos,
E teve as mais bonitas namoradas
Chegando, até mesmo,
A desvirginar algumas -
Coisas de Chico Maluco.
Brigava fácil pra ter seu mundo
No lugar.

Na próxima vez que  for pescar,
Sem dúvida,
Lembrarei de Chico Maluco.

SONETO ENCIUMADO


Menina do cabelo assanhado
E do andar manso de um cisne que ama,
Vou pesadelar noites de cama,
Pato-feio de um teu namorado.

Só noite e eu ainda ando assombrado
Da sombra do teu beiço que engana,
No meu, uma vontade sacana
De morrer por saber enganado.

No teu beijo, um beijo meu perdido,
Menina, a maldade de um outro achar
Canto bobo no canto escondido,

De choro, um outro canto por amar,
Não sei se pode haver um vestido,
Mas o céu, ah! esse, vou encontrar...

FIM


Nunca ter o amor
Ao qual todos têm o direito.
Sons;
Partida;
Luzes;
Velórios.

A chuva veio consumar a morte
E consumou também
A morte do meu amor.


TALVEZ OUTONO


Vou inventar, de novo,
Minhas noites
E os açoites serão suaves;

Terá brisa de janela aberta
Ventando a triste lua-cheia.

Você, sem dúvida,
Tem cheiro de colheita
E volta todo ano
A passear os pastos.
É fácil quando dormem -
Por que teimas maltratar-me?

Se quiser inventar, de novo,
Minhas noites
Do fundo do meu sono
Você não entristecerá
Os melancólicos rios mudos
Com gosto de estrada cansada

E de tanto lugar nenhum
Vai dar em nada.

Você tem cheiro
De roça de algodão à tarde -
Talvez não saiba
(Nem ninguém saberá) -:

Meus versos têm preguiça
E demoram a sonhar.

sábado, 23 de julho de 2016

IARA



No meio da confusão,
Um verso,
Caído,
Estatelado no chão,

No seio da multidão,
Imerso, 
Doído,
Feito ausência de perdão.

Noite clara,
Beijo d'água
Nina o sono
Onde Iara
Chove mágoa
Regando abandono.

Novos sacis
Pululam secas folhas,
Nos velhos gibis
As portas do fundo
Esquecendo acalantos
Abre o mundo.

MEU PAI É FORTE


Meu pai é forte
Feito retrato preto e branco -
Saúde de fotografia -
E mais esperto que a maioria.
Hoje pra enganar a morte
Está disfarçado de velhinho,
Mas vai ao banheiro sozinho.


TRANSFIGURAÇÃO


Todos os mares;
Todos os rios;
Cada manhã;
Cada verão;
Cada olhar;
Todos os gestos;
Os mais tardios
E os mais precoces
Ocasos;
As confusas pernas;
As inconsistentes salivas;
As tênues asperezas
Nas línguas;
As mesmas estrelas mortas
E a não mesma terra
Ainda vendo, indo;
Os bafos de inverno;
As madrugadas dos atos
Inconsequentes;
As filhas prontas;
As novas camas;
Os novos amores
Pesados em se ter amado
Um dia;
As Babilônias;
As choupanas;
As luas e os bêbados -
Estranho prêmio ao brilho;
Os cânceres;
Os hospitais;
Os hospícios;
Toda a loucura
Classificada e polida
A vida;
Marte logo ali;
A sarjeta fria;
Os tubarões;
Os supermercados;
A televisão;
O dia diferente
Do homem diferente
Da vida diferente
Dos iguais;
As ilhas;
A política;
A polícia;
Os mocinhos e
Os bandidos;
As fomes
Nascendo e morrendo
Feito homens;
As fragatas;
As matas;
O pó;
O asfalto e as
Filosofias;
Os mártires
Anônimos das tramas;
O fogo;
Heráclito;
As revoluções;
O pensamento;
O vento;
Cristo;
As árvores e os capins;
A noite de espera;
Um novo filho;
A guerra e, no fim
Da terra,
Os voos;
Os carros;
As drogas;
As missas;
Os domingos;
Semanas;
Impérios;
Napoleão;
Mistérios;
Santos;
Josés, Marias e
Eternos encantos
Encantando;
Marés;
Peixes inspirando
Redes;
Paredes;
O fim do outono;
As primas;
As rimas e,
Simplesmente
Naquele brilho
Despretensiosamente
Já visto, com espanto,
Você, rindo sem saber
Da eterna trama,
Num canto.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

MARESIA


Morena
Na praia
Sem pena
Sem saia
Serena
Samambaia.

ALFA QUASE BETA


Do reino de palavras perdidas
Levantarão fantasmas,
Velhos e conhecidos
Para cozer a noite
E trazer o prêmio
Às pernas insensatas,
Portanto não se assuste
Se, de seu sonho,
Me pegar dormindo -
Já gravei teu nome
Para o caso
De uma relativa importância
Afetar dois pontos -:
Tenho sustos disfarçados
Mais fracos que os teus
Que são rosas
Toscas
E entendem de dançar o vento.

TROPEÇO


O menino percebeu,
Na namorada,
Um certo sorriso
No canto esquerdo do olho
E quando foi embora,
Custou a dormir.
Depois sonhou que caia,
Caia longamente e sabia
Que antes de bater no chão,
Iria acordar.

DESPEDIDA


Por que ir agora?
Não sabemos da memória
De nossas cadelas?
Quem sabe
O tempo de uma
Saideira -
As singularidades
Desmontadas
Do teu desenrolar
Nós?
Uma estação
Faminta
Nos leva de espera
No meu trem que vem,
No teu trem que vai
E,
No fogo da hora -
Efêmera trama
Sensata -
Tiro o chapéu
Pra Nietzsche
Dando-te
Adeus
(Até logo).

terça-feira, 19 de julho de 2016

DEZEMBRO


Não chove mais,
Não chove -
Tristeza como esta
Não houve,

Meu rincão,
Minha tristeza
Coberta de chão!

Não chove mais,
Não chove...

A beleza vem depois
Que a chuva tiver lavado,
Tiver levado o campo
Pra ver o mar.

Não chove mais,
Não chove...

Tanta tristeza,
Tanta reza

A beleza vem depois
De tanta reza,
Tanta chuva...

Vomitando mananciais
Deus ouviu
Tarde demais,
Ouviu demais.

COLÓQUIO


- Um bom poeta deveria,
Também, pensar política -
Disse-me, certa vez, um amigo
E nem reparava nas vísceras
Estabanadas, ganhando a porta
De saída da Corporação.

- Um bom poeta deveria
Olhar mais para o próprio umbigo.

TROVA UMA OVA

Uma coisa eu te digo
Com rima ou sem rima:
És amigo mais que amigo,
Ari Valério de Lima.

A mim vale tua amizade
Amicíssima de sobrar,
Amizade de compadre
Que espero não passar.

Mas já que passa vento,
Passa boi, passa boiada,
Do fundo do pensamento
Passo-te uma mulher pelada

(Que, espero, irá gostar).
Se não, não se encuque:
Gosto é de quem gostar
E gosto não se discute,

Agora, se enchi-lhe o ego
Ou lhe deixei sisudo,
És amigo, não nego,
Desculpe-me por tudo.

sábado, 16 de julho de 2016

LAÇOS DE FAMÍLIA


Tiraram minhas armas
E quebro a cara por aí,
Na raça,
Na graça
De ter colhões
Para morrer.

Sorriem-me bom dia
E vão fazendo suas vidas
Com a cor da minha.
Bebamos um trago,
Brindemos à sobriedade
Das famílias felizes
Jogando ossos e restos
Ao lobo cansado,
Enquanto a nobreza
Não vem -
No teu mal
Que não é meu
Que mal tem?

ABRAÇO


Um dia, quem sabe,
Falta de ar
E nem vontade de morder,
Só respirar
E morrer...

CONVALESCENÇA


Súbito, na mão,
A caneta
Luzidia feito o punhal
Carregando milhões
De vidas esvaídas -

Cansada de sangrar
A poesia espera
Outra cor,
Daquelas do rir
Sem se lembrar,
Do amor que se esquece
No amor.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

INTANGÍVEL


O dito pelo não dito.
Só palavras, mesmo.
Com elas
Furtamos cores,
Mas teve um beijo
De não-boca,
De vento no cabelo,
De cheiro de alguma flor
Que não lembro.
E as quinas, hein menina?
Vento encanado,
Ping-pong...
Pensando sem cabeça
Na Irlanda.
Lendas
De pretas rendas
Pra que falar?
Nos pensam
Bancos e pedras
E ruas em amnésias
De quinas
E uma abóbora.
É, menina...


MORREU UM POETA


- Morreu um poeta! -
Gritaram no mundo.
Hão de abrir suas tripas
E ler suas vísceras
Ao sol profundo,
Secas;
Morreu um poeta vagabundo
Que esqueceu a poesia
Num canto de boteco,
Na putaria,
Morreu um poeta
De uma morte qualquer,
De gangrena
Gonorreica,
Cirrose,
De chaga,
De praga de mulher -
Morreu um poeta
Quando deus quiser.

FIM DE BAILE


As crianças já foram dormir
Senhora que procura
Barcos fortes em meio a tormentas!
Precisava tanto álcool
Em meus olhos
Para, enfim, não notar
Morta aquela luz?
Repila afagos temporãos
E vá embora:
É fácil não deixar-me olhar
Mais - o fundo do poço!

É até engraçada
A necessidade de palavras:

Você não sabe como ardia
Em vodca e coca-cola
As minhas possibilidades de soluço!

As crianças ainda sabem
O rumo de casa.

Fico triste
E o mundo caminha em linha reta.

sábado, 9 de julho de 2016

MEU QUERER


Meu querer hoje é frágil,
Água límpida de fonte,
E nem pretendo torná-lo forte.
Quero antes velá-lo
Como a um bebê - pequenas coisas
Que inspiram a morder.

E acho também
Que meu querer é caco de vidro,
Fragmento de um todo irrecuperável,
Mas, agudo no toque:
Reflete um pouco do sol
E quase todas as estrelas.

COSME DE RONDÓ


Quero o poema mais bonito
Na hora em que a noite
E o dia se esbarrarem,
Sem perceber.
Vou guardá-lo
E você não saberá
Se me acorda ou embala:
Em meu sonho dia de labuta,
Hora de plantar as tempestades,
Fugindo nas copas das árvores,
Um susto, rabiscado no teu livro
E o olho arregala.

RESTOLHOS

Desculpe-me,
Mas toda vez que sinto falta de morte
Não consigo
Não olhar pra você

E pensei tanto em céu!

Estava ali
E eu sabia
Não ser a vida
Tanta estrelaria

E pensei tanto em céu!

Desculpe-me
Mas sentia falta
Em doer-me tanto o coração
Só por doer:

Saber contar de um a dez
E esperar o tempo passar.
Um:
Tive dez mundos
Mas não gostei de nenhum.
Dois:
A vida assenta
E o que vem depois?

PREVISÃO


Um dia,
Venderei minha poesia
E, então, estarei vingado:
Toda tua ironia,
Covardia,
Trocarei por alguns cruzeiros
Ou, quem sabe,
Novos cruzados:
Zero a menos,
Zero a mais...
Tanto fez,
Tanto faz...

Mas, pensando bem,
Todo o preço não pagará
O que você me fez:
Menino
Com vontade de casa,
E saudade de chorar.

Compondo breguesia
De ressacamarga cerveja,
No fundo, com gosto
De música sertaneja.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

PALHAÇO NA CORDA BAMBA EM DIA DE CHUVA E SABÃO


Esse sou eu
De versos íngremes
Nos dedos.
As poças de lama,
Na calçada,
Miram minha cabeça
Deixando o ritmo
Do coração
Seguir inquieto
E vão.
Esse sou eu
De mundo inteiro
Na mão.
Palhaço na corda bamba
Em dia de chuva
E sabão.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

ESQUINAS


                 Tenho fé nas tantas e tantas quebradiças juras dos veres de supetão, das costas, dos óculos esquecidos. Tantas verdades malquistas desmentindo as minhas flores. Não tem problema. Às vezes teu, nos lampejos de moleque, nos livros de história e nas lagartixas com seus nomes exatos - a falta de você não mais errar.

ESPERA

 

                                                 Para o seu Servídeo
                                               
                                               
                                                 "Canto infinito e breve
                                                  Abro os braços, planto leve,
                                                  Colho novas cantigas
                                                  No meu quintal."

                                                                Gutemberg Vieira

Aquele peixe, sem dúvida,
Iremos pescar juntos -
Temos as iscas e as linhas,
Cada um à sua maneira, não é?
É só esperar o tempo
E contar suas histórias
Enganando os bobos desígnios
Dele brincar com a gente.

Balela, essa de se pescar homens.
Homem não se fisga não...
Se faz no tato e no cascalho,
No esmeril e no malho
Às vezes, imperfeito:
Impaciente -

Os peixes vão estar lá:
Não têm pudor em esperar.

ORAÇÃO


Guarde meu sorriso na velha mala,
Embaixo do travesseiro,
Pois quando eu voltar trigueiro
Meus sonhos deitam, sem lhe acordar,


Meus beiços sonham, sem beijá-la,
Senhora morta do meu vagar.

PRÉ-ILÚDIO (Ou Confissões de Gêmeos)


Sou qual curva de estrada:
Inconstante e falso
Mas avaro.

TEUS OLHOS DEITARAM


Teus olhos deitaram
Sobre os meus tão rápido
Ali na calçada
E ali mesmo ficaram.

E você não sabe, moça,
Da tempestade
Embevecidamente surda
Ganhando a cidade.

Brincando de namorada
Sabendo sem saber
Meus olhos de chuva
Bebendo enxurrada.

DIÁLOGO


Por que choras
Alma enclausurada,
Não foste sóbria,
Bem-amada?

Despertei-me da vida
Num colchão de escarpas,
Inda tenho, sentida,
Uma falta de chagas.

ORGASMO


Esqueça a poesia
Assim que os olhos
Sentarem no banco de pedra
Em meio à praça
Do último verso

Na vez em que misturarmos
Paire o desespero do voar
Sem asas
Chova a terra convulsão embriagada
Afobe a cãibra do caminho
Na água rasa.
Misturando gente
E madrugada

Brilhe o sol no céu do mar
Mais nada.

VERMELHO E AZUL


Da outra vez,
Vou chorar em vermelho e azul,
Tendo teus olhos
E na frente o sul.
Anos e mágoas
E hoje o visto
Por não ver.
Vou sonhar
O me ver
Em você.

PRA QUANDO FINADOS PASSAR


De meus poucos passos sei
Um pé na lama,
Outro na cama de sonhos
Onde ornamentaste
O equilíbrio em navalhas.

Beije fundo minha chaga,
Senhora-menina-quando-chora,
Com língua comprida
De faustosas plagas -

Abra as pernas para o mundo
Parindo ingratidão.
No meu osso seco e sóbrio
Mora frio um coração:

Pra que lembrar.

DESALENTO


Vou prender um verso
Como quem arranca um coração,
Sem lisonjeas,
Nu,
Na beira da estrada,
Asperando cadafalsos
Nas minhas pretensas
Botinas de poeta.
Minha goela
Margeia distraída
Todas as brincadeiras.
Eu, filho do vento?
Tenho na chuva
Uma amiga chorosa e,
Se por acaso,
Passar o tempo,
Cito Rimbaud
Aos meus botões,
Pois,
As estrelas choram rosa,
Eu,
Que não sou astro
Nem nada,
Só fico
Prosa.

REFLEXO


A areia busca o vento
Ou o vento busca a areia?
O pé é alheio...
Cauda de sereia,
Areia,
Alhures,
Pausa...
E areia e sereia e
Aguardente
Olhar.

FORJA


Desaprendendo amor
Creio estar amando,
Vendo fugas findarem
Loucas.
Desamando preces,
Creio estar crescendo,
Sorrindo passos tortos
Bêbados.

Sou curva de caminho,
Inconsequente,
Sou lembranças parcas
No gosto da aguardente.

Se tomarmos o laço
Ao pé da letra,
Você será criança
Por ter dança no caminho
E eu avô, de velho
Caminhar sozinho.

Espero beijar um neto.

Vou lembrar violões
Nas primeiras afinações.

E o gosto da chuva
Vai nascer sobrinhos
No pó das possibilidades -
Sem querer,
Novas cidades.

O barro de tantas tramas
Vai forjar invernos
Lentos
E, se acaso
O tempo atropelar carinhos,
Tão velhos,
Seremos pontos
Tontos no espaço.

Não levantamos cama
À toa -
Tínhamos, na mão,
Chances
E brindamos ao vento
Cuspindo
Na cara dos vermes,
Nascendo,
Da brisa mãe
Ao soluço
Das manhãs.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

ABRIL: SERENO QUATORZE


Queria tanto
A dor e a euforia
De um inferno
Que aprendi a ter
Numa história,
Onde roubaria,
Pra você,
O fogo da lareira
Envolvido no frio
Vestindo um cobertor de lã,
Cheirando à tarde
Nas roças de algodão:

Passamos rápido pelos poemas
Ocupados em não tropeçar.

ODE A ROSETA


Ah, como eu queria
Que tua cidade fosse nossa,
Me reconhecer na rua dos teus pés.
Teu ir embora
Poderia não ser tanto
Tango argentino.
Não te vejo mais na minha gente
E nem falo mais língua de árvore,
Mas, algum asfalto
Com amnésia de poeira
Quase que me lembra.
A tarde ainda é minha
Assim como meu sol que ficou -
Não tenho amigos.
Meu afastar, ainda,
É você indo embora.
Teus dias de pluvi-menstruo
É saudosa maldição
Na esterilidade faminta
Dos bueiros da cópia
Da cidade do santo.
Tudo aqui tem um pouco de você,
Porém, as partes não se completam:
Sinto carência do tudo
Que é você longe;
Da sombra do porvir no fundo do meu olho
Que é você semi-esquecida,
Na incapacidade em trazer você à tona
Que sou eu tentando ver,
Na árvore raquítica de um canteiro de esquina,
Olhos tristes que são você longe;
Dos horizontes circunvizinhos
Que vagamente - no abandono
Daquele que procura
Em todos os olhares,
Signos,
Gestos e sons
Resquícios do amor ido -
Lembram você.
A constância do voltar,
No lugar da satisfação,
Faz viva e forte
Uma faca no peito.
O sangue faz-se forte e amargo
E toma, a cada dia,
O lugar das palavras
Sufocadas no engolir seco.
Na viagem, sinto pena
Dos pinheiros altos,
Encerrados na paisagem
Dos cerrados
- Outros órfãos de raiz.

"BOM COMO FUI PRA VOCÊ"


Ei rapaz fanho,
O que você está me dizendo?
Não consigo entender.
Quem é Arthur McBride?
Não sei.
Crio algum
Com o pó da estrada na garganta,
E perdido no sonho, mas,
O que você está mesmo me dizendo?
Acho que sei
Que o pó da estrada,
Mais que no ano passado,
Assenta em seu olhar,
De perfil.
Estamos indo ao mesmo lugar?
Eu já te vi antes?
Eu não entendo, mas,
Algumas coisas...
Zé Diamante?




terça-feira, 5 de julho de 2016

ÍCARO


Hoje acordei com medo da morte
E  geograficamente perto do meu amor:
Inexato deserto
Fecundado no devir.

Tua beleza morena, menina,
Desafina minha paixão de inverno
E atrofia minhas asas.

Cair é tudo e
Perto ainda é longe
No espaço-tempo do voar.

EPITÁFIO DE DOMINGO


Derrubado.
      A derrota de menino
      Que ergue ante o olhar de Deus
      A mais nova tábua:
      Quebrar círculos.
Pulso a esmo.
      O prêmio extasiado
      Dado a quem entoou em vão
      A canção do martelo:
      Eco oco.
Persistência.
      No flanco tu,
      O indesejável e indispensável
      Parceira.
Necessidade.
      A visão ainda cega
      Da beleza da rosa
      Do lixo.
Desatino
      A necessidade de bovino:
      Ruminar segundas-feiras
      E cuspir...
      Cuspir sempre.

PARA HERÁCLITO


Meta física
É meta, mas,
Metafísica
É meta tísica.

Sou Napoleão
E a Torre de Babel
Que se levantou do mar
E o fogo pôs no chão.

De novo no rio de infância
A saudade não morreu,
Aquele rio em outra instância
Menino e homem esqueceu.

REVERSO


Olho pra você
Com olhos penais
De quem, quando criança,
Achava vulgar beijo cebola.
Assim é o olhar criança tola
De quem entra na dança
Com trejeitos pardais
À sua mercê.

PSEUDO-POÉTICA II


Arte,
Artifícios,
Arte de ofício:
Ofícios da arte,
Cartão picado da arte,
Horário de almoço da arte.
Proletários da arte
Uni-vos!!!
- Eu não.
Minha arte?
Cortês? Sã? -
Cortesã,
Prostituta de tostão,
Barganhando amor rápido
Com pressa de cigarro.
Minha arte
É saco cheio da arte
Mas,
Mais que tudo,
É covardia.

ENGLISH SONNET


Give me your hand on midnight train, my friend,
And let me take her down to the paradise.
I'll see you again when the shadows rise
And you will see that it isn't the end.

We're lookin' to the fields of promise land,
Lost in the fool fears of our proper lies, 
When the past comes around and our flame dies,
I want to keep my blind faith on your hand.

It's time to break the rules of strange place,
While smilin' yellow people , they are dyin',
Please, don't let die that blue light on your face.

Let's look to the sunrise's eyes, I'm cryin'.
It's clear that we're waitin' for the human race,
But we're lonesome travelers in the king's rain.

SIMPLES SONETO


Queria fazer um poema não-seno,
Nem cosseno, nem raiz quadrada,
Um poema que não tivesse nada,
Assim feito seu olhar moreno.

Só olhar e me mata de sereno.
Eu que, na grandeza demasiada
Das suposições edificadas,
Embaraço-me de tão pequeno.

Depois de ver teus olhos outra vez
Vou jogar no lixo toda teoria,
Num ritual de alegre e boba embriaguez.

Serei então céu, ar, fogo e calmaria,
Demiurgo caído ante tua pequenez,
Segredos de papel na ventania.

SONNET'S BLUES


                                                      "Me and the devil was walkin' side by side..."   
                                                                                                      Robert Johnson
                                                                               

Quando é necessário fundir a máscara
E então, é pouco o tempo da falha,
Densa, plúmbea, viva mortalha,
Em tosca sina, selará a xícara.

Oh, doce veneno o beijo de outrora,
Pendente no fio da navalha.
Em torpe trato, de pouca valha,
Infinito fim, por fim vigora.

Curto compasso em negro azul
Cinge em branco o mostruário,
Em novo beat, o antigo blues.

A vida pulsa em mofo armário,
 Aguardando o preço que seduz.
Ressurrecto, morre o pactário.

IGNORÂNCIA


Adormeci deitado no jardim
E tive um sonho estranho.
Acordei num sobressalto, no ar. 
E desejei
Desejei o mundo de cabeça pra baixo
Pra eu cair no azul.

ORAÇÃO A DEUS


E cada vez que eu choro
Em minha mísera pequeneza,
Tenho piedade de Deus
Que por certo deve chorar
Em sua infinita grandeza.
E cada vez que um erro
Me excita a levantar,
Tenho piedade de Deus
Que por ser todo poderoso
Privou-se de errar.

Me consolo por ti, Deus,
Que por certo não me fez
À sua imagem e semelhança.
E de seu distante rincão estelar,
Feito a mais tola das crianças,
Brinca de nos ver errar.

E cada vez que o Diabo
Vem em meu sono morar,
Me alegro por ti, Deus,
Que de seu infinito amor,
Me ensinou ao Diabo amar.
E cada vez que o amor sucumbe
Entre a carne e a dor,
Me alegro por ti, Deus,
Que por ser o amor em si,
Sempre há de me sobrar amor.

Me entristeço por ti, Deus,
Que matou seu próprio filho
Na confiança de nós, outros,
E de seu infinito tédio estelar,
Feito o mais nulo dos astros,
Espera nos ver brilhar.


segunda-feira, 4 de julho de 2016

DECEPÇÃO


Você espera que eu te leve ao céu,
Ao invés disso,
Te trago bobagens rimadas num papel.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"



XLI - Post Scriptum


                                   Dedicado à mais bela memória que um dia terei.

O problema não é a memória
Do teu nome,
Nem a memória do teu corpo,
Em felina elegância
Atravessando os labirintos
Do meu pensamento.

O problema não é teu riso suspenso
No escuro da minha insônia.

O problema não é tua alma
De passarinho
Assoviando nas manhãs
Das janelas de meu coração.

O único problema é tua altura.

Parece que teu beijo
Está a milhões de anos-luz
Desta galáxia,
Onde explodem sentimentos
E palavras,
Lacrada no meu peito.

Fim de "O Livro Das Memórias".

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XL - The End

I read almost all the books
& I know too much
Of a little bit.

My eyes are blind
& my hands are numb.

I read almost all the books
& I know that the flesh is pain
To the soul to be remembering.

So, to myself
This my own songs I sing.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXXIX

Não quero nada
Além da memória
Que é teu aconchego -
A música que mais amo
Batendo suave algodão
No ritmo do meu coração:
A alma nômade
Nos ferrolhos do corpo -
O amor mais que perfeito
Forjado no querer em solidão.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXXVIII

Desde que nos conhecemos por gente
Somos deuses
E, como todo bom deus,
Funcionários públicos.
O problema é que acomodamos
A divina providência
Na previdência social e,
Assim,
Faça-mo-nos
O mal nosso de cada dia.

" O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXVII - Epílogo

A minha memória,
Transitória glória prepotente,
Que, há pouco, me mostrou os dentes
Num riso em contrapé,
Agora me faz crente
Em não ter fé.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXXVI

No pavimento
A enxurrada poesia,
Mas virá o dia e,
Indolente,
O sol raia,
Esse arauto rabugento.

Cheira a diesel
E borracha em pó
O verde teimoso nas sarjetas

E o caos ruge atônito,
Inaudível e cego
Os dejetos lirismos.


"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXXV

Você rompeu,
Tresloucadamente vermelha,
A sala
E galáxias de borboletas,
Em câmera lenta,
Pairavam ao seu redor.

Atônito, engoli todas as palavras.

Armagedons,
Maremotos,
As sete pragas do Egito
E a imanente corrupção política
Da mãe pátria...

Ao raio que os parta!
Pudera sempre
Você vir pagar o que me deve.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXXIV - Dos Sonhos Perdidos

Sonhei você
No sonho mais belo
Que já foi dado a alguém sonhar.

Eu nunca lembro meus sonhos.

Mas sei que este sonho,
Sedimentado sob infindáveis
Eras geológicas de minha mente,
É que mantém
O desabrochar da primavera,
A bela melancolia cinza
Da chuvosa tarde outonal,
O sol tecendo
As páginas dos dias onde,
Porventura,
Quando o deus do impossível
Vacilar,
Esteja escrita,
Em estúpida e singela
Beleza,
Nossa  história.

                                                         13/10/05

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXXIII

A tua solidão me dói
Quando você me ri
Quando você me ama
Quando você me quer
Eu quero estar dentro de ti
Ser um pouco a tua alma
A minha solidão me dói

A tua solidão me dói
Quando os filhos criam asas
Quando a casa fica escura
Enquanto esfria o café
Adormecer dentro de ti
Antes que a noite cai
A minha solidão me dói.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXXII

Na brisa noturna
Bandeiras flamulam Sírius.
O cansaço,
Um trago esquecido
No além-mar astral
As ondas vêm beijar
As urdiduras da sina,
Os ecos da memória,
Aquilo que,
Por falta de escolha,
Arrastamos
Quando muito é perdido.

                                                              03-12-04

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXXI

Um balé de navalhas,
O capim seco,
O vento frio de inverno
Retalhado em infinitas canções.

Acima,
O céu zumbia inaudível
Sua hiperbórea obliquidão.

Ideias trocadas,
Torpor do fim do dia,
Hora de ir embora,
O chão se dissipando sob os pés,

A terra natal lhe estranhando,
O novo lhe cuspindo na cara,
Tudo se contorcia na boca da noite.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXX

O céu, em círculos concêntricos,
Beija meus pés.

Respiro o mundo inteiro
Nas gotas de chuva
Que abriram mão
De tocar o chão.

O céu, em círculos concêntricos,
Se abre sob meus pés
E voo no fim da tarde.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXIX

Enquanto o café estampava a madrugada
Em sua última e estapafúrdia volúpia,
Figuras de constelações em livros antigos,
Quietas, ouviam a conversa.

Como se toda chance não fosse última,
A alvorada bisbilhotava
Entre as frestas nas paredes de madeira
E o mais sacro altar, vilipendiado.

A partida envolve, em melancólico véu,
Quem fica e quem vai,
De costas, indefeso,

Envolve em melancólico véu quem fica
E quem vai, na solidão,
O mundo inteiro o recebe de braços abertos.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXVIII

O poema embotou teu olhar
Enquanto, em convulsão, a cria
Rompia o útero.

O poema embotou teu olhar
E a inocência fluiu azul
Rosa-dos-ventos.

O poema embotou teu olhar
E a filha condescendente
Paria o pai.

                                                         15-08-04

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXVII

Anteontem perdi
O melhor verso que fiz.
Ele se foi quando a estrada
Desabava em minha cara.
Bons versos são mesmo assim:
Insetos que, no horizonte,
Vão beijando a luz da tarde,
Estrelas esquizofrênicas
Na vertiginosa queda,
Contraluz
No retrovisor.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXVI

A tarde escoa abóbora
Em serena languidez
E absorta a alma vaga.

Restolhos missionários se insinuam
Na alquebrada arquitetura -
Textura de nuvens
De gafanhotos,
De Magalhães.

Absorta a alma vaga
E a tarde escoa abóbora.
A argila milenar reverencia
Na contraluz
O verde-musgo.

O braço de Centauro acena
Em oblíqua confusão
A alma vaga

Entre a partida e a chegada.

                                                                               20/07/04

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXV

O quintal pipoca verde
Na luz do resto de chuva
E do verde densas cores
Contorcendo o ar estalam
Ampulheta as folhas pingam
E o dia conta-gotas
Encharcado o tempo flui
Vendo a vida em si suspensa
E a cada ato conclui
Em novo esboço a labuta
Sorrateiramente brota
Comunhão na umidade
Campos esperam cultivo
Campos além das cidades
E mesmo a estiar sorrisos
Molha a cor da saudade.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXIV

Teus pelos caninos se eriçam
E o dorso lunar me ancora
Titubeio em brancas nuvens
E me parte a carne outrora

Me recende a terra preta
Artérias pulsam eletrônicas
A chuva espreita passageira
E no esperar se faz sinfônica

Escrevo mais das calmarias
Me hibernei no teu sargaço
A peleja me eviscera
Quem me sou além de aço?

Por monções desnorteadas
Trota a pena desalmada
Teu olhar sibério e oblíquo
Teu olhar terra minada 

Paira o campo assolado
A vaidade sem raiz
E a comportar migalhas
Um insólito aprendiz

Os teus flancos galopantes
Mentem pardas pradarias
E mentira por mentira
Um atentado à Geografia

Tanto espasmo condensado
Se derrete ao derredor
E a tinta aqui se esvai
Desbotando amor maior

Acuadas em desterro
Legiões de glórias vãs
Equacionam a miséria
Ostentam pose malsã

Meu rincão em rima rota
Submerge em teu suspiro
Me despenha seus quadris
E sem perguntar atiro

Em teu úmido astrolábio
Erram soturnas esquadras
Ruma teu quadrante sul
Meus arremedos de quadra

Se um dia vir à tona
Esse torpe alaúde
Nessas rotas escarpadas
Fui só aquilo que pude

Já você orbita plena
Meu oposto equinócio
E te fiz tão leviana
Sempre a despertar meu ócio.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXIII

Velhos amigos
Labutaram igual camelo -
Fibra infantil
Temperada a sol e fadiga,
Depositada
Na difusa retícula
Dos retratos preto e branco

Ou somente
Toscas estátuas de pedra.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXII

O que me ama na vida
São essas memórias não minhas,
Esse não ter estado em certos lugares,
Esses rios serenos
E a bruma alimentando musgos
Nos troncos das árvores esquecidas.

Incontáveis Orientes
Têm me assombrado
Por infindáveis madrugadas.

Sonho que meus dedos esquálidos
São galhos secos
Rasgando a brisa de outono,
Tecendo uma canção,
Rompendo o véu de Maia.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXI

Queria lembrar alguma coisa
Que tivesse feito a vida
Não ser essa vã descida.
Mas a memória,
Essa transitória
Glória prepotente,
Me mostra os dentes
Num riso em contrapé:

Lembro muito
Aquilo que não é.

                                                     09-06-04