Das estrelas cadentes
Subentende-se
Estrela que cai
E delas os simples dizem:
"Mudou de lugar"
E eu faço o pedido:
Quero a felicidade.
Não a que cai,
Mas a que muda de lugar.
sexta-feira, 29 de dezembro de 2017
1999 E O VENTO LESTE
Minhas paixões estão
Por aí, no vento.
Será que só eu
Tenho ouvidos atentos?
Minhas paixões uivam
Farpas no relento.
Será que são meus
Estes ouvidos sangrentos?
Por aí, no vento.
Será que só eu
Tenho ouvidos atentos?
Minhas paixões uivam
Farpas no relento.
Será que são meus
Estes ouvidos sangrentos?
DIDÁTICA
O poema é um brilho de sol
Refletido nos olhos fechados
E o poeta é menino,
De olhos fechados,
Tentando tocar essa luz.
Refletido nos olhos fechados
E o poeta é menino,
De olhos fechados,
Tentando tocar essa luz.
sexta-feira, 22 de dezembro de 2017
AS CIGARRAS
As cigarras zumbem,
Zumbem, zumbem
No céu azul
E uma puxa a outra
E outra e outra...
De repente é uma ciranda
Zumbindo a amplidão.
Pudera tanto zumbido
Estilhaçar esta redoma,
Não fosse infinita a prisão,
Não fosse tão pequeno o coração,
Não restasse ainda infinito
O azul no caco de vidro.
Não foi à toa
Que a chamaram cigarra,
Feminino de cigarro:
Se o cigarro vai bordando
De fumaça a solidão,
A cigarra vai bordando
De zumbido o verão.
Zumbem, zumbem
No céu azul
E uma puxa a outra
E outra e outra...
De repente é uma ciranda
Zumbindo a amplidão.
Pudera tanto zumbido
Estilhaçar esta redoma,
Não fosse infinita a prisão,
Não fosse tão pequeno o coração,
Não restasse ainda infinito
O azul no caco de vidro.
Não foi à toa
Que a chamaram cigarra,
Feminino de cigarro:
Se o cigarro vai bordando
De fumaça a solidão,
A cigarra vai bordando
De zumbido o verão.
NOVEMBRO
O céu limpo
E o horizonte amarelo
Inebriado nas sobras
Do sol poente.
Vênus ergue-se
Austera,
A nordeste
E o frio na alma
Que se sente
Na primavera
Ah, quem dera
Fosse eterno,
Mas é só
Resto de inverno.
E o horizonte amarelo
Inebriado nas sobras
Do sol poente.
Vênus ergue-se
Austera,
A nordeste
E o frio na alma
Que se sente
Na primavera
Ah, quem dera
Fosse eterno,
Mas é só
Resto de inverno.
JOGO DE DADOS
Meu amor que me perdoe
Mas não me dou o direito
De ser feliz:
Tenho todos os motivos
Mais um
Para estar triste.
Se o amor ficar
Eu sei
É seu lugar;
Se o amor passar
Eu sei
É sua lei.
Não tenho nada
E ganho tudo
E o tudo em mim
Implora mudo,
Uma migalha que seja
De fim.
Ah, sorte viciada
Em mim cravada,
Diz ao meu amor
O que farei
Sendo pra todo o sempre
De ti o rei.
Meu amor que me perdoe
Mas não me dou o direito
De ser feliz:
Tenho todos os motivos
Mais um
Para estar triste.
Mas não me dou o direito
De ser feliz:
Tenho todos os motivos
Mais um
Para estar triste.
Se o amor ficar
Eu sei
É seu lugar;
Se o amor passar
Eu sei
É sua lei.
Não tenho nada
E ganho tudo
E o tudo em mim
Implora mudo,
Uma migalha que seja
De fim.
Ah, sorte viciada
Em mim cravada,
Diz ao meu amor
O que farei
Sendo pra todo o sempre
De ti o rei.
Meu amor que me perdoe
Mas não me dou o direito
De ser feliz:
Tenho todos os motivos
Mais um
Para estar triste.
sábado, 16 de dezembro de 2017
NOTURNO DA ETIMOLOGIA
Os vagalumes
São almas penadas
Que vagam lumiando
A noite.
As almas penadas
São almas empenecidas,
Compadecidas
Do escuro mundo
Da nossa tristeza.
São almas penadas
Que vagam lumiando
A noite.
As almas penadas
São almas empenecidas,
Compadecidas
Do escuro mundo
Da nossa tristeza.
REVIVIDA
Essas tardes de sábado
Ensolaradas
Após a chuva
Na primavera
Não me enganam:
São moças vaidosas
De banho tomado
Se perfumando
Pra namorar.
Essas tardes de sábado
Ensolaradas
Não vêm a hora
Da noite chegar.
Ensolaradas
Após a chuva
Na primavera
Não me enganam:
São moças vaidosas
De banho tomado
Se perfumando
Pra namorar.
Essas tardes de sábado
Ensolaradas
Não vêm a hora
Da noite chegar.
CAOS PRIMORDIAL
O cheiro tosco do teu sexo
Dribla todas as artimanhas
Das indústrias dos cosméticos
E cheira somente a sexo;
Cheiro que embriaga o corpo
E deixa lúcida a alma
Lúdica calma
Que me draga
Em lambuzado sossego -
Areia movediça -:
As mulheres devoram dos homens
Somente o necessário
Pra cuspir à vida.
Dribla todas as artimanhas
Das indústrias dos cosméticos
E cheira somente a sexo;
Cheiro que embriaga o corpo
E deixa lúcida a alma
Lúdica calma
Que me draga
Em lambuzado sossego -
Areia movediça -:
As mulheres devoram dos homens
Somente o necessário
Pra cuspir à vida.
FESTA NO CÉU
A rã voa no azul do céu
E o espelho d'água
Se contorce em gargalhadas
Dessa insana patacoada.
E o espelho d'água
Se contorce em gargalhadas
Dessa insana patacoada.
sexta-feira, 8 de dezembro de 2017
MONTE PALOMAR
Aldebarã e Betelgeuse
São duas mulheres
Que amo.
Aldebarã e Betelgeuse
São dois olhos que amo
Numa só mulher.
Aldebarã e Betelgeuse
São esse amor
De tanto tranbordado
Pois de ontem já sabia
Que amanhã em ti veria
O meu hoje consumado.
São duas mulheres
Que amo.
Aldebarã e Betelgeuse
São dois olhos que amo
Numa só mulher.
Aldebarã e Betelgeuse
São esse amor
De tanto tranbordado
Pois de ontem já sabia
Que amanhã em ti veria
O meu hoje consumado.
NOVA CANÇÃO DE AMOR
O lobo solitário
Entoando odes enlouquecidas
À lua
Morreu em mim.
E o meu amor
Só consegue ser assim:
A gravidez desse silêncio
Noturno
Ressonando em minha alma.
Entoando odes enlouquecidas
À lua
Morreu em mim.
E o meu amor
Só consegue ser assim:
A gravidez desse silêncio
Noturno
Ressonando em minha alma.
NOTÍCIA DE JORNAL
As implicações de cunho moral,
Político, ideológico,
Social ou econômico
Ficaram sepultadas no momento
E o fato se cristaliza
Na memória passageira:
Estudante é morto
Ao se recusar a entregar
O violão.
O corpo tomba inerte
Ao lado da via férrea.
Dedos percorrem notas
Encardidas de dinheiro,
Estendidas na escala musical.
A diferença entre um tom
Maior e um menor
É que a terça abemolada
Atribui ao acorde menor
Um som de tristeza
E o mundo soa o presseguir
Em tom menor
Mas, amanhã...
O fato se cristaliza
Na memória passageira.
Político, ideológico,
Social ou econômico
Ficaram sepultadas no momento
E o fato se cristaliza
Na memória passageira:
Estudante é morto
Ao se recusar a entregar
O violão.
O corpo tomba inerte
Ao lado da via férrea.
Dedos percorrem notas
Encardidas de dinheiro,
Estendidas na escala musical.
A diferença entre um tom
Maior e um menor
É que a terça abemolada
Atribui ao acorde menor
Um som de tristeza
E o mundo soa o presseguir
Em tom menor
Mas, amanhã...
O fato se cristaliza
Na memória passageira.
DA SABEDORIA II
A felicidade, na certa,
A gente escreve
Em letras tortas
Ou certas
E o Diabo me corrija
Se eu estiver errado
Mas não se olha os dentes
De um cavalo dado
E a felicidade, na certa,
É grito de gol
E bola na trave.
A gente escreve
Em letras tortas
Ou certas
E o Diabo me corrija
Se eu estiver errado
Mas não se olha os dentes
De um cavalo dado
E a felicidade, na certa,
É grito de gol
E bola na trave.
sexta-feira, 1 de dezembro de 2017
CÂNTICO ROMÂNTICO
Quem inventou o dinheiro
Foi um grande embusteiro.
Quem queima dinheiro é louco.
O louco toca fogo no dinheiro
E dá risada.
Já pensou se todo mundo fosse louco:
A vida seria mais engraçada
Ou só mais iluminada?
Foi um grande embusteiro.
Quem queima dinheiro é louco.
O louco toca fogo no dinheiro
E dá risada.
Já pensou se todo mundo fosse louco:
A vida seria mais engraçada
Ou só mais iluminada?
REINCIDÊNCIA
Menina, você não sabe mas,
Vou ser, de novo, poeta,
Pois a inocente renitência
Pode ser penitência
Ou, talvez, só o remédio
A um mal que já está feito.
Vou ser, de novo, poeta,
Pois a inocente renitência
Pode ser penitência
Ou, talvez, só o remédio
A um mal que já está feito.
RENDEZ-VOUS
O ar inda traz o cheiro doce -
O meu velho nariz
E sua mania de boca -,
Mas esta incógnita flor,
Vez ou outra,
Brota em seus canteiros etéreos.
Será só pra me ver passar?
O tempo veste um seu casaco antigo
Mas, ah, sai de mim
Esta quase vontade de chorar.
Não quero que entendam
Os anseios e as frustrações em meus sonhos.
Quero pura e simplesmente que me amem
Na pureza e simplicidade que é amar.
O meu velho nariz
E sua mania de boca -,
Mas esta incógnita flor,
Vez ou outra,
Brota em seus canteiros etéreos.
Será só pra me ver passar?
O tempo veste um seu casaco antigo
Mas, ah, sai de mim
Esta quase vontade de chorar.
Não quero que entendam
Os anseios e as frustrações em meus sonhos.
Quero pura e simplesmente que me amem
Na pureza e simplicidade que é amar.
sexta-feira, 24 de novembro de 2017
DIALÉTICA
A extrema razão do que penso
Não está no senso
- Esse perdi faz tempo! -
Mas no desatino
Em ver tão velho o mundo
Refletindo brilho
Em olho de menino.
Não está no senso
- Esse perdi faz tempo! -
Mas no desatino
Em ver tão velho o mundo
Refletindo brilho
Em olho de menino.
COLÍRIO
Teus olhos da cor
Da água de mina;
Teus olhos, menina,
São a dor
Dos meus dias vadios.
Meus olhos sombrios
Vivem dos teus
Não terem visto, sequer,
A cor dos meus
Nalgum olho qualquer.
Da água de mina;
Teus olhos, menina,
São a dor
Dos meus dias vadios.
Meus olhos sombrios
Vivem dos teus
Não terem visto, sequer,
A cor dos meus
Nalgum olho qualquer.
sábado, 18 de novembro de 2017
PARÁBOLA
As antenas parabólicas
Aparentam guarda-chuvas
Atropelados pelo vento
E, atropeladas por notícias,
As pessoas vão sendo
Aquilo que elas acham
Que as pessoas gostariam
Que elas fossem.
Aparentam guarda-chuvas
Atropelados pelo vento
E, atropeladas por notícias,
As pessoas vão sendo
Aquilo que elas acham
Que as pessoas gostariam
Que elas fossem.
MINHA MENINA
Minha menina tem olhos fechados
E sonha comigo.
- Mas eu não mereço tanto!
Não a conheço e estou acordado:
Vigio o encanto
Comendo cacos de vidro.
E sonha comigo.
- Mas eu não mereço tanto!
Não a conheço e estou acordado:
Vigio o encanto
Comendo cacos de vidro.
AMNÉSIA
Teu rosto é um esboço
De grafite mal acabado
E eu, nesse crepúsculo
Que hoje cismou entonar
Variantes de abóbora,
Sinto-me roubado.
De grafite mal acabado
E eu, nesse crepúsculo
Que hoje cismou entonar
Variantes de abóbora,
Sinto-me roubado.
sexta-feira, 17 de novembro de 2017
RODAMOINHO
Nem todos os poemas do mundo
Podem dar conta do meu recado
Que vem num vento,
Despetalando a rosa-dos-ventos,
Um vento desnorteado,
Varrendo os passados -
Um poema sem fundo.
26/01/98
Podem dar conta do meu recado
Que vem num vento,
Despetalando a rosa-dos-ventos,
Um vento desnorteado,
Varrendo os passados -
Um poema sem fundo.
26/01/98
ORÁCULO
Tua sinceridade me ofende
Assim perfeita,
Feito uma esfera;
Tuas pernas são um livro aberto,
Um romance sem meio
Nem fim;
Tua fenda me desvenda,
Embebida em orvalho, a alma
Cheirando a capim.
19/01/98
ROTINA
Quando o inverno vier
Minhas mãos se aquecerão
Entre tuas coxas -
Tuas enormes coxas brancas -
E cochilarei entre teus seios
Ouvindo o lúgubre clarim do vento
Anunciando o cair da noite -
Teus enormes seios brancos.
Tu que tens lírio no nome
E não és bela nem feia
Trazes, encalacrado no corpo,
O natural odor das camponesas -
Imemoriais camponesas habitam
Teu enorme corpo branco -,
Sufocando meu desespero
Em sentir o desembestado rolar do mundo.
Teimosamente tentarei o chão
No quente lodaçal do teus charco
E farei cara feia,
Olhos de atravessar parede
Disfarçando de ti o moleque
Embarreado até os cabelos
E, entendendo a brincadeira,
Você se fará de tonta.
Na hora do almoço
Falaremos bestialidades,
De tanto, frágeis e, então,
Perceberei a surrada camisa de flanela
E o cabelo preso em rabo de cavalo -
Mais precisamente, o rabo duma égua,
Encorpada égua num cio eterno
E, com violência, te abraçarei por trás,
Tomado de um nostálgico dó.
Ingenuamente malogrado
Lhe darei o meu melhor.
O resto fica à sorte das longas noites invernais
Coalhadas de fantasmas.
Com meu suor, regarei a frieza da terra e,
Sem alternativa, você parirá,
Na dor dos meus dias, seu amor maior.
05/01/98
Minhas mãos se aquecerão
Entre tuas coxas -
Tuas enormes coxas brancas -
E cochilarei entre teus seios
Ouvindo o lúgubre clarim do vento
Anunciando o cair da noite -
Teus enormes seios brancos.
Tu que tens lírio no nome
E não és bela nem feia
Trazes, encalacrado no corpo,
O natural odor das camponesas -
Imemoriais camponesas habitam
Teu enorme corpo branco -,
Sufocando meu desespero
Em sentir o desembestado rolar do mundo.
Teimosamente tentarei o chão
No quente lodaçal do teus charco
E farei cara feia,
Olhos de atravessar parede
Disfarçando de ti o moleque
Embarreado até os cabelos
E, entendendo a brincadeira,
Você se fará de tonta.
Na hora do almoço
Falaremos bestialidades,
De tanto, frágeis e, então,
Perceberei a surrada camisa de flanela
E o cabelo preso em rabo de cavalo -
Mais precisamente, o rabo duma égua,
Encorpada égua num cio eterno
E, com violência, te abraçarei por trás,
Tomado de um nostálgico dó.
Ingenuamente malogrado
Lhe darei o meu melhor.
O resto fica à sorte das longas noites invernais
Coalhadas de fantasmas.
Com meu suor, regarei a frieza da terra e,
Sem alternativa, você parirá,
Na dor dos meus dias, seu amor maior.
05/01/98
sábado, 11 de novembro de 2017
ASSOMBRAÇÃO
À luz de velas as sombras
Dançam na parede.
Muitos dos fantasmas morreram
Com a chegada da luz elétrica.
31/12/97
Dançam na parede.
Muitos dos fantasmas morreram
Com a chegada da luz elétrica.
31/12/97
SOLSTÍCIO
Mesmo que o céu,
Com suas afiadas garras azuis,
Ao meio-dia,
Estrangule meu pensamento,
Rasgarei meu peito a unha
E, de mim, me jogarei no vento.
Diabos me carreguem
A alma leve feito pluma!
Ao meio-dia
Há pouca sombra pra ciência
E se é mesmo pra escrever,
Só escrevo inconsequência.
25/12/97
Com suas afiadas garras azuis,
Ao meio-dia,
Estrangule meu pensamento,
Rasgarei meu peito a unha
E, de mim, me jogarei no vento.
Diabos me carreguem
A alma leve feito pluma!
Ao meio-dia
Há pouca sombra pra ciência
E se é mesmo pra escrever,
Só escrevo inconsequência.
25/12/97
COSMOGONIA
Minha vida era meio parecida ao vento
Que sai por aí, à noite, atravessando os quintais
E, nessa minha vida parecida ao vento,
Eu adorava deter-me nas calcinhas
E nos sutiãs, dependurados nos varais
E ficar cheirando, cheirando
Com meu cheiro uivante de vento
O sonho que as pessoas dormem.
Um dia, porém, os larápios
Principiaram a levar as roupas
Postas pra secar e, de minha sina de vento
Costurada a arame farpado -
Os ventos cozem suas sinas desrespeitando cercas -,
Por meu lado, principiei solitário
A dançar uma melancólica valsa.
Antes não havia melancolia
E as pessoas costumavam dividir as emoções
Em tristeza e alegria.
Melancolia é tristeza enxuta de lágrimas
No lenço que a menina,
Pra matar o tempo, enquanto não pegava no sono,
No vento pôs pra secar.
Vento, de tanto ventar,
É velho louco varrido
Ranzinza, teimoso e tarado
E lenço não paga a pena roubar.
23/12/97
Que sai por aí, à noite, atravessando os quintais
E, nessa minha vida parecida ao vento,
Eu adorava deter-me nas calcinhas
E nos sutiãs, dependurados nos varais
E ficar cheirando, cheirando
Com meu cheiro uivante de vento
O sonho que as pessoas dormem.
Um dia, porém, os larápios
Principiaram a levar as roupas
Postas pra secar e, de minha sina de vento
Costurada a arame farpado -
Os ventos cozem suas sinas desrespeitando cercas -,
Por meu lado, principiei solitário
A dançar uma melancólica valsa.
Antes não havia melancolia
E as pessoas costumavam dividir as emoções
Em tristeza e alegria.
Melancolia é tristeza enxuta de lágrimas
No lenço que a menina,
Pra matar o tempo, enquanto não pegava no sono,
No vento pôs pra secar.
Vento, de tanto ventar,
É velho louco varrido
Ranzinza, teimoso e tarado
E lenço não paga a pena roubar.
23/12/97
HUMILDE TRAVESSURA
Não há nada mais belo
Que um beijo roubado,
Ainda mais se for
Da mais bela menina.
Dinheiro gosta de quem
Gosta dele
E minha alma é pequenina -
Só rouba da vida a beleza
Que não cabe nas palavras.
16/12/97
Que um beijo roubado,
Ainda mais se for
Da mais bela menina.
Dinheiro gosta de quem
Gosta dele
E minha alma é pequenina -
Só rouba da vida a beleza
Que não cabe nas palavras.
16/12/97
sexta-feira, 10 de novembro de 2017
MOIRA
Poeta?!
Nunca fui.
Um pouco triste
Sim.
Sozinho
Muito,
Mas poeta?!
Nunca fui não!
Paixão só tenho uma
E mais nada
Mas, pra compensar,
Minha viola desafinada,
A lua e todas as estrelas
Quando puderem
Agora poeta...
Arrenego!
Sempre pensei poeta
Brincando coisas belas
Eu brinco as feias,
Mas singelas.
Aos poetas a beleza.
Eu fico com o gosto que gosto
Da minha tristeza.
Poeta?!
Nunca fui.
A poesia me dilui.
Nunca fui.
Um pouco triste
Sim.
Sozinho
Muito,
Mas poeta?!
Nunca fui não!
Paixão só tenho uma
E mais nada
Mas, pra compensar,
Minha viola desafinada,
A lua e todas as estrelas
Quando puderem
Agora poeta...
Arrenego!
Sempre pensei poeta
Brincando coisas belas
Eu brinco as feias,
Mas singelas.
Aos poetas a beleza.
Eu fico com o gosto que gosto
Da minha tristeza.
Poeta?!
Nunca fui.
A poesia me dilui.
ASTRONOMIA
Vou dar-lhe o anel
De um novo amor
E adivinhar teu olho
Doente da minha dor,
Assim,
Fico triste no sem vento,
Talvez, terra de Deus,
Brilhando morte atrasada -
Olhos teus -,
Na estrela
De antes de eu nascer.
De um novo amor
E adivinhar teu olho
Doente da minha dor,
Assim,
Fico triste no sem vento,
Talvez, terra de Deus,
Brilhando morte atrasada -
Olhos teus -,
Na estrela
De antes de eu nascer.
BONANZA
Quando nossas almas se cruzam,
Aparentemente, não nos conhecemos -
As aparências enganam
E não é pre menos:
Paixão forte não se amansa
E não aceita remédio;
Em último caso, vira ódio
Mas, jamais amor que cansa.
Aparentemente, não nos conhecemos -
As aparências enganam
E não é pre menos:
Paixão forte não se amansa
E não aceita remédio;
Em último caso, vira ódio
Mas, jamais amor que cansa.
MOÇA DE LIMEIRA
Teria de ser assim:
Primeiro você entraria na sala,
Depois seria um perder chão -
Pés e mãos adormecidos,
Parecendo que a gente saiu,
Num passeio, por aí,
E nem lembrou de nos levar:
Só poderia mesmo ser assim:
O sol chagaria, como sempre chega,
Atrasado na manhã
E se deixaria colorir
Na beleza do cheiro
De uma flor de laranjeira.
Primeiro você entraria na sala,
Depois seria um perder chão -
Pés e mãos adormecidos,
Parecendo que a gente saiu,
Num passeio, por aí,
E nem lembrou de nos levar:
Só poderia mesmo ser assim:
O sol chagaria, como sempre chega,
Atrasado na manhã
E se deixaria colorir
Na beleza do cheiro
De uma flor de laranjeira.
MOVIMENTO
Queria amar-te com o amor
Desinteressado das amizades;
Com um amor que tivesse, mesmo junto,
Uma cor eterna de saudade;
Com um amor que fizesse, acossado
E defunto, esse amor com gosto de morte.
Desinteressado das amizades;
Com um amor que tivesse, mesmo junto,
Uma cor eterna de saudade;
Com um amor que fizesse, acossado
E defunto, esse amor com gosto de morte.
sexta-feira, 3 de novembro de 2017
ROTINA
Morte que chegasse pela manhã
E entrasse, junto ao cheiro do café
Coando, pela goela;
Esta morte se apagaria
Junto ao dia
E não seria mais aquela.
E entrasse, junto ao cheiro do café
Coando, pela goela;
Esta morte se apagaria
Junto ao dia
E não seria mais aquela.
TRAPAÇA
Você escondeu
As chaves da madrugada
No sutiã.
Agora pisca fácil,
Comadre de todas as estrelas.
Presas, num raiar de dia
Invernal,
As mãos afagam o hálito
Do fogão de lenha.
As chaves da madrugada
No sutiã.
Agora pisca fácil,
Comadre de todas as estrelas.
Presas, num raiar de dia
Invernal,
As mãos afagam o hálito
Do fogão de lenha.
sábado, 28 de outubro de 2017
TALKIN' BLUES (Thinkin' About The Pacaembu)
Ouves o barulho lá fora,
Lady Nonsense com Universo
Na cabeça?
Os anjos estão descendo
Os ídolos do pedestal,
Forjando a marteladas
O Titã, mirando o porvir -
Porra! Caralho!
Torcida de bundão!
Quem manda nesta merda
É a torcida do Verdão!
Independente eu sou,
Vou dar porrada, eu vou..." -
O presidente leu o Contrato Social?
Dormiu no sleeping-bag?
All you need is love
Love is all you need.
Go to the west,
The Chile is the best?
Hay que endurecerse
Pero sin perder la ternura
Jamás.
Todos os sixties
Estão clamando autoridade
Às antenas de TV:
O carnaval passa
Na rua principal -
Sujeira embaixo do tapete,
No fundo do quintal.
HAI-KAI DESESPERADO
A noite é uma cama cinza
Onde a lua sonha
Rosa amarela:
O vento traz
Tristeza na janela.
Onde a lua sonha
Rosa amarela:
O vento traz
Tristeza na janela.
MIL OLHOS
Mil olhos
Beliscam os meus
De soslaio,
Às vezes,
Um balaio de gatas,
Outras,
Mulatas
E eu sempre acorde perdido
Encontro a porta
E saio.
Beliscam os meus
De soslaio,
Às vezes,
Um balaio de gatas,
Outras,
Mulatas
E eu sempre acorde perdido
Encontro a porta
E saio.
sexta-feira, 27 de outubro de 2017
POEMA ROUBADO DE UM DELÍRIO MATUTINO DO ANDARILHO ZÉ LOUCO
Ela chega perto de mim
Ri de mim
Depois escorrega de mim
Eu fico sem graça
Ela ri de mim
Ela ri de mim
Aí as outras não vão mais
Chegar perto de mim
Eu fico sem graça...
Ri de mim
Depois escorrega de mim
Eu fico sem graça
Ela ri de mim
Ela ri de mim
Aí as outras não vão mais
Chegar perto de mim
Eu fico sem graça...
ITINERÁRIO
Caminho cheira a dinheiro -
Cheiro de mãos misturadas
No jeito em que se misturam
Sortes atadas à estrada.
Cheiro de mãos misturadas
No jeito em que se misturam
Sortes atadas à estrada.
DESAMOR
Meus estilhaços
Brincando valsa
Com a chuva.
Trago ébrio
O efeito do vento
Calculado,
Atirando presentes aos pombos:
O gosto da carne
Irrompe monstruoso
Buscando efeito
Na manhã.
Desenhar sem lógica
Pode ser a porta
À cabeça rota.
Somente o asfalto
Brinda a festa
Em ângulos desbarates
E o menestrel
Anseia frestas:
Desespero
No coração pelado
Chamando meninas
Em beijos excomungados,
Até que ratos
Pintem o espelho
Aos plácidos galhos:
Desenhar sem lógica
Talvez seja perdão
De pecado.
Brincando valsa
Com a chuva.
Trago ébrio
O efeito do vento
Calculado,
Atirando presentes aos pombos:
O gosto da carne
Irrompe monstruoso
Buscando efeito
Na manhã.
Desenhar sem lógica
Pode ser a porta
À cabeça rota.
Somente o asfalto
Brinda a festa
Em ângulos desbarates
E o menestrel
Anseia frestas:
Desespero
No coração pelado
Chamando meninas
Em beijos excomungados,
Até que ratos
Pintem o espelho
Aos plácidos galhos:
Desenhar sem lógica
Talvez seja perdão
De pecado.
sábado, 21 de outubro de 2017
PARTITURA
As flores estão murchas
Sobre a mesa.
Olho a janela
E vejo o dia
Chegando atrasado -
Quem irá ensinar a música
Aos violões de amanhã?
Sobre a mesa.
Olho a janela
E vejo o dia
Chegando atrasado -
Quem irá ensinar a música
Aos violões de amanhã?
ROSAS TEMPORÃS
Tenho uma faca na mão
E não é de hoje;
Amores feito tripas esparramadas
Coram minha vista
De vermelho -
As rosas floriram
Fora da primavera:
Os assassinos, algum dia,
Passam pelo jardim.
E não é de hoje;
Amores feito tripas esparramadas
Coram minha vista
De vermelho -
As rosas floriram
Fora da primavera:
Os assassinos, algum dia,
Passam pelo jardim.
SALA DE AULA
Aprendam rir minha dor
Filhos da terra
Estranha e minha;
Já passei por jardins,
Caminhos e ventos
Assoviando a melodia
De uns cabelos
Mentirosamente meus.
Hoje, julgo estrada
Minha verdade
E maldade seus atalhos,
Alhos e bugalhos
No meio da tempestade
Dançando o lixo
No ar vermelho,
Insistindo o sangue
Nesta cansada e velha
Desfocada retina.
Filhos da terra
Estranha e minha;
Já passei por jardins,
Caminhos e ventos
Assoviando a melodia
De uns cabelos
Mentirosamente meus.
Hoje, julgo estrada
Minha verdade
E maldade seus atalhos,
Alhos e bugalhos
No meio da tempestade
Dançando o lixo
No ar vermelho,
Insistindo o sangue
Nesta cansada e velha
Desfocada retina.
REDUNDÂNCIA
Meu coração
É do estradão esburacado,
Coração empoeirado
Batendo em solavanco,
Tanto
Que sinto manco.
É do estradão esburacado,
Coração empoeirado
Batendo em solavanco,
Tanto
Que sinto manco.
ALQUIMISTA
Se você aparecesse
Agora
Deixaria, desconsertado,
Minha alma lá fora
Numa chance que devo
A toda a tristeza
Guardada, em relevo,
Nas margens dos meus olhos.
Há um rincão
Nas íngremes escarpas
Que escondem
O meu coração.
Se você aparecesse
Agora,
Desejaria meu sangue
Suco de amora
Corando docemente
Meu disfarçado susto
Displicente.
Agora
Deixaria, desconsertado,
Minha alma lá fora
Numa chance que devo
A toda a tristeza
Guardada, em relevo,
Nas margens dos meus olhos.
Há um rincão
Nas íngremes escarpas
Que escondem
O meu coração.
Se você aparecesse
Agora,
Desejaria meu sangue
Suco de amora
Corando docemente
Meu disfarçado susto
Displicente.
ANIMISTA
Talvez, em algum perdido lugar,
Eu saiba dançar
A gravidez das pedras,
A sinuosidade malvada
Das árvores,
O sono das flores
Nos botões;
Talvez a primeira manhã
De primavera
Seja loira
E o céu caia vermelho,
Em chuva de rosa.
Eu saiba dançar
A gravidez das pedras,
A sinuosidade malvada
Das árvores,
O sono das flores
Nos botões;
Talvez a primeira manhã
De primavera
Seja loira
E o céu caia vermelho,
Em chuva de rosa.
sexta-feira, 13 de outubro de 2017
ESTRELA D'ALVA
- Poesia
Onde esteve
Durante estes
Anos todos
Em que escrevi?
Não tenho mais
Sangue
De criança
Extremada:
Se,
De ti,
A vida cobra pouco,
Já de mim
Não cobra nada.
Poesia,
Não me acordaste
Como lhe pedi,
Pra ver a última estrela,
Quando dormi?
- Tu não tens mais o ouvido
De criança extremada:
Bem que te viu o bem-te-vi
Na janela ensolarada.
UM AMIGO PASSA
Um amigo passa
E a gente custa
A acreditar.
Um amigo passa
No meio de fumaças
Vilãs;
No seio de vidas
Divididas
Em novas flores,
Novos gostos,
Novas cores.
Um amigo passa
Por já não haver
Mais
Caminhos
E a gente escolhe
O sozinho
De ter amigos
Que passam -
A lei máxima do amor:
Gente que cuida da gente
Com calor -
Rimas e desalentos
Cuspo fora
Com a flor.
E a gente custa
A acreditar.
Um amigo passa
No meio de fumaças
Vilãs;
No seio de vidas
Divididas
Em novas flores,
Novos gostos,
Novas cores.
Um amigo passa
Por já não haver
Mais
Caminhos
E a gente escolhe
O sozinho
De ter amigos
Que passam -
A lei máxima do amor:
Gente que cuida da gente
Com calor -
Rimas e desalentos
Cuspo fora
Com a flor.
UM SIM E UM NÃO
Um sim e um não.
Alguém de nós dois
Esqueceu uma violeta na janela.
Talvez no vapor
A essência busque novas ondas,
Trombe terceiros cuspes,
Terceiros sons,
Terceiras folhas;
Perca-se no um
De mim numa areia de praia
E da areia se esvaindo em nossa mão -
Toda história -;
Não seja jamais de outros
Que não minha e tua -
Nossos olhos.
Choros sufocados doem
Feito falta de fim:
Abortar crianças lindas
E ainda querer outras:
Loucos.
Alguém de nós dois
Esqueceu uma violeta na janela.
Talvez no vapor
A essência busque novas ondas,
Trombe terceiros cuspes,
Terceiros sons,
Terceiras folhas;
Perca-se no um
De mim numa areia de praia
E da areia se esvaindo em nossa mão -
Toda história -;
Não seja jamais de outros
Que não minha e tua -
Nossos olhos.
Choros sufocados doem
Feito falta de fim:
Abortar crianças lindas
E ainda querer outras:
Loucos.
CATAVENTOS
Mais uma vez
Quero ter amigos sem pudor,
E não deixar ir embora
Uma certa saudade.
Num sol distante,
Pra lá das florestas
De murchas cidades
A beleza de minha gente,
Junto a algo de pó
E de rugas,
Posta em estantes esquecidas,
Será,
Exatamente beleza,
Como hoje a é.
Crianças queimando o dia
No quintal,
E esquecendo
O prenhe da memória,
Até que réguas,
Tréguas,
Astrolábios,
Caligrafias
E belezas artefatas
Despertem o sonho:
No meio do capim,
Um cavalo de pau perdido
Dos reinos dormidos.
sexta-feira, 6 de outubro de 2017
BANDEIRA BLUES
Vocês não vêem
Que estou precisando de ajuda?
Tragam-me o vômito
Do fim
Das noites perdidas;
Tragam-me a sede
De beber água com as mãos;
Meu coração peleja
Num inferno sem tamanho
A dor da vida na morte.
Cortem minha garganta!
Falarei meu coração tacanho,
Se tiver sorte,
Sem voz.
Poesia mal agradecida,
És-me maior
Que a vida!
FALSO SONETO EM TOM DE PRÓSPERO ANO NOVO
Enterrei uma flor daninha
Lá no fundo do quintal:
Não quero paixão mesquinha
Entre eu e o temporal.
Venham ver o que ficou
Em um copo tão amargo.
Em cacos, a formiga embriagou
Restos de vinho Campo Largo.
Reality is the best fantasy of all
Escrito na camisa azul:
Não cheiro mais As Flores Do Mal.
Andorinhas vêm do sul?
Comendo etcétera e tal
A caneta entorna blues.
Lá no fundo do quintal:
Não quero paixão mesquinha
Entre eu e o temporal.
Venham ver o que ficou
Em um copo tão amargo.
Em cacos, a formiga embriagou
Restos de vinho Campo Largo.
Reality is the best fantasy of all
Escrito na camisa azul:
Não cheiro mais As Flores Do Mal.
Andorinhas vêm do sul?
Comendo etcétera e tal
A caneta entorna blues.
FIM DE CADERNO
De alma, escrevo pouco.
Escrevo mais de não-saber.
Já nem sei mais se sou louco
De ver filho crescer.
Escrevo mais de não-saber.
Já nem sei mais se sou louco
De ver filho crescer.
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
TRAIÇÃO
Espere facas de meus beijos
Buscando o fel da tua língua:
Não me importo com carinhos afiados,
Me compra o teu dinheiro
No caminho estropiado -
Só veneno, só veneno!
Depois descansarão
Vísceras doentes,
Dentes sujos de traição
E um sereno de senhora:
Por hora, feche teus olhos.
Buscando o fel da tua língua:
Não me importo com carinhos afiados,
Me compra o teu dinheiro
No caminho estropiado -
Só veneno, só veneno!
Depois descansarão
Vísceras doentes,
Dentes sujos de traição
E um sereno de senhora:
Por hora, feche teus olhos.
HOWLIN' BLACK DOG BLUES
Cão que uiva lá fora
Tanta dor jogada fora.
Cão, minha sorte é mesquinha:
Esta vida não é minha.
Cão que uiva, lá fora
Tanto sonho foi-se embora.
Tua dor vem, aqui dentro,
Ecoar no meu relento.
Cão que uiva lá fora,
Cala-te, ou lhe mato agora.
Mato a noite, mato o vento
Até me matar, a tento,
A vazão que o peito estoura
Calmaria em pensamento,
Cão que uiva lá fora.
Tanta dor jogada fora.
Cão, minha sorte é mesquinha:
Esta vida não é minha.
Cão que uiva, lá fora
Tanto sonho foi-se embora.
Tua dor vem, aqui dentro,
Ecoar no meu relento.
Cão que uiva lá fora,
Cala-te, ou lhe mato agora.
Mato a noite, mato o vento
Até me matar, a tento,
A vazão que o peito estoura
Calmaria em pensamento,
Cão que uiva lá fora.
SOLEDADE
Como posso sorrir às tardes
O meu esquecimento,
Logo aqui em casa,
Onde tudo é pensamento?
Dobradas, no fundo de uma gaveta,
As minhas asas.
Saudades das revoadas?
Que nada!
Hoje enquanto vejo a tarde
Ainda vens me visitar
Nos receios de menina envergonhada.
O meu esquecimento,
Logo aqui em casa,
Onde tudo é pensamento?
Dobradas, no fundo de uma gaveta,
As minhas asas.
Saudades das revoadas?
Que nada!
Hoje enquanto vejo a tarde
Ainda vens me visitar
Nos receios de menina envergonhada.
CRISTIANA
Por ironia ou por acaso
Fez-se o mar
E você,
Sabendo exatamente onde dormir,
Em minha frente,
Revelou-se Cristiana
Em vez de Maria
Ou Ana.
Fez-se o mar
E você,
Sabendo exatamente onde dormir,
Em minha frente,
Revelou-se Cristiana
Em vez de Maria
Ou Ana.
SETEMBRO SEM CHOVER
Dói no céu
A dor de vidas
Mal dormidas.
Possivelmente,
De tão sós
As almas,
De repente
Desataram nós
Nas forcas
Pendentes nas figueiras,
Ensaiando bruxas,
Saciando fogueiras.
Placidamente,
Dói no céu,
Descarnados em galhos,
Dedos, rasgando véu.
A dor de vidas
Mal dormidas.
Possivelmente,
De tão sós
As almas,
De repente
Desataram nós
Nas forcas
Pendentes nas figueiras,
Ensaiando bruxas,
Saciando fogueiras.
Placidamente,
Dói no céu,
Descarnados em galhos,
Dedos, rasgando véu.
NARCISO
Cheiro de tabaco pesado
No tempo, andando solto -
Às vezes círculos, espirais,
Pátrias, paixões...
Cheiro de roça em fim de tarde,
Orgasmo em nervo moleque
Arquejado, na fonte,
Vendo mundo distar céu
No tormento dos pingos
Em plana superfície -
Pátrias, paixões...
Água de moringa cabocla,
Esguias curvas vendavais,
Insinuando, matreira, o beijo
Apaixonando punhais
Mãe, me quebra o espelho!
Pai, me resmungue perdão!
Quero morrer de ficar velho,
Quero chorar meu irmão.
Mas se a estrada é comprida
E o certo da vida o outro lado,
Deem-me de bebida cansada,
Quero o louco erro do mundo
E mais nada,
Quero sonhar na saída.
Gosto de cachaça no sono,
Embalando anjos passados -
Tempo curvo, grisalho, de bengala:
Dois dedos e meio de prosa...
Pátrias, paixões...
Frestas de sol e fumaça
Beijando sonhos jogados
Em franzidas testas.
O bafo do café insiste
Onde a paixão desiste -
Pra lá, Paraná,
Pra cá, sertão
Enganando os olhos...
Pátrias, paixões!
A sede da vida é camelo
E a areia do tempo fachada,
Quero beber de poeira
E gritar de garganta rasgada.
Se o espelho é mentira
E é pesado o perdão,
Mãe, quero outra coberta!
Pai, me traz o violão.
Se a saída é lorota
E a labuta destino
Quero beijar desatino
Com gosto de história rota
E soluçar menino.
No tempo, andando solto -
Às vezes círculos, espirais,
Pátrias, paixões...
Cheiro de roça em fim de tarde,
Orgasmo em nervo moleque
Arquejado, na fonte,
Vendo mundo distar céu
No tormento dos pingos
Em plana superfície -
Pátrias, paixões...
Água de moringa cabocla,
Esguias curvas vendavais,
Insinuando, matreira, o beijo
Apaixonando punhais
Mãe, me quebra o espelho!
Pai, me resmungue perdão!
Quero morrer de ficar velho,
Quero chorar meu irmão.
Mas se a estrada é comprida
E o certo da vida o outro lado,
Deem-me de bebida cansada,
Quero o louco erro do mundo
E mais nada,
Quero sonhar na saída.
Gosto de cachaça no sono,
Embalando anjos passados -
Tempo curvo, grisalho, de bengala:
Dois dedos e meio de prosa...
Pátrias, paixões...
Frestas de sol e fumaça
Beijando sonhos jogados
Em franzidas testas.
O bafo do café insiste
Onde a paixão desiste -
Pra lá, Paraná,
Pra cá, sertão
Enganando os olhos...
Pátrias, paixões!
A sede da vida é camelo
E a areia do tempo fachada,
Quero beber de poeira
E gritar de garganta rasgada.
Se o espelho é mentira
E é pesado o perdão,
Mãe, quero outra coberta!
Pai, me traz o violão.
Se a saída é lorota
E a labuta destino
Quero beijar desatino
Com gosto de história rota
E soluçar menino.
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
HAPPY BIRTHDAY
Bebo ao teu aniversário.
Dionísio, Baco.
- Apresento meu amigo Baco.
- De onde ele veio?
- Da terra do sem-fim.
- Será que você
Inda gosta de mim?
Dionísio, Baco.
- Apresento meu amigo Baco.
- De onde ele veio?
- Da terra do sem-fim.
- Será que você
Inda gosta de mim?
PERFEIÇÃO
Perfeição,
Grãos na terra,
Coração
Da noite
Esperando
O sexo quente
Do chão
Cuspir o mundo.
Grãos na terra,
Coração
Da noite
Esperando
O sexo quente
Do chão
Cuspir o mundo.
VAZIO
Quando não se tem
nada a ser escrito,
não é possível calar o lápis
que cospe aflito e,
em vez de pensamento,
pinta em grafite
e bonito.
nada a ser escrito,
não é possível calar o lápis
que cospe aflito e,
em vez de pensamento,
pinta em grafite
e bonito.
RETIRO
Com tanta morte na beira da estrada,
Esquecemos o norte
À sorte do vento,
Consortes que somos
Do pó do destino,
Da areia lavada,
De sereias banguelas
Que já não cantam nada.
Com tanta morte na beira da estrada,
Corte profundo,
Em pedra magra
Rasga o mundo
Em pouca chaga -
É melhor a morte velha,
Velha conhecida
Que já não cobra passo,
Só vida.
VACILO
Jaulas,
E o coração, onde morde?
Em meio ao tinto
De olhos esparramados
Pela sala,
Vago permanecer;
Juntas destroncadas
Em vagas
Vogas,
Chega a vez:
Os ossos rangerão
Solidão -
Coisa de velho?
Pelo menos,
Coração.
Os olhos áridos
Rumarão contramão:
Coisa de medo
E quando muito
Distração?
E o coração, onde morde?
Em meio ao tinto
De olhos esparramados
Pela sala,
Vago permanecer;
Juntas destroncadas
Em vagas
Vogas,
Chega a vez:
Os ossos rangerão
Solidão -
Coisa de velho?
Pelo menos,
Coração.
Os olhos áridos
Rumarão contramão:
Coisa de medo
E quando muito
Distração?
sexta-feira, 15 de setembro de 2017
SAMBA ANTIGO
Se um dia,
Morena,
Sentires cheiros
Meus,
São ecos de
Adeus,
Ecos meus,
Na velha estrada.
Estou correndo
Na sorte,
Pela vida,
Pela morte,
Até que a sorte
Nos
Se pa re .
Morena,
Sentires cheiros
Meus,
São ecos de
Adeus,
Ecos meus,
Na velha estrada.
Estou correndo
Na sorte,
Pela vida,
Pela morte,
Até que a sorte
Nos
Se pa re .
PRESSÁGIO
Virá a primavera
Permeando,
Displicentemente,
As eras do jardim,
Numa época
Onde sangue denso
É matiz de soluço
E passeamos
Nimbos-estratos
Na seca galeria.
Virá a outra vida
Do esterco e
Feito enchente
Entonará tangentes
Insulando
Pasmos teoremas
Na voracidade
Em rasgar a carne
Acostumada,
Viciada,
Apegada
Aos calendários,
Postos no muro
Onde o olho passeia
Vitrines e fomes,
Dos jardins
De casas abismadas
Enamoradas
Em tornados.
Permeando,
Displicentemente,
As eras do jardim,
Numa época
Onde sangue denso
É matiz de soluço
E passeamos
Nimbos-estratos
Na seca galeria.
Virá a outra vida
Do esterco e
Feito enchente
Entonará tangentes
Insulando
Pasmos teoremas
Na voracidade
Em rasgar a carne
Acostumada,
Viciada,
Apegada
Aos calendários,
Postos no muro
Onde o olho passeia
Vitrines e fomes,
Dos jardins
De casas abismadas
Enamoradas
Em tornados.
REVOLTO
Chova enquanto é tempo
Da menina lavar sua graça
- Água colando um biquinho
E projetando seio no ar -
Vestido molhando a vontade
Traquina, em vento e fumaça,
Desmanchar em água, em água
Gata brincando em lamber zêlo
Até rasgar-se em ser ar
De assim que a primavera
Chegar.
Da menina lavar sua graça
- Água colando um biquinho
E projetando seio no ar -
Vestido molhando a vontade
Traquina, em vento e fumaça,
Desmanchar em água, em água
Gata brincando em lamber zêlo
Até rasgar-se em ser ar
De assim que a primavera
Chegar.
sábado, 9 de setembro de 2017
THE WALK
Long years fallin'
To the our state
Of desolation,
Slowly, slowly
Like rain's waters
Without sensations.
Long years is on our
Eyes of unnatural power
Sleepin', sleepin'
On the walkin'
Of other history
Passin'.
To the our state
Of desolation,
Slowly, slowly
Like rain's waters
Without sensations.
Long years is on our
Eyes of unnatural power
Sleepin', sleepin'
On the walkin'
Of other history
Passin'.
NOTURNO DA BEIRA-ESTRADA
Os quero-queros, a duras penas
- Duro tom dos suplicantes? -
Embalam a lua brilhando amena,
Acordam sonho aos viajantes.
- Duro tom dos suplicantes? -
Embalam a lua brilhando amena,
Acordam sonho aos viajantes.
MEDÍOCRE SAMBA SEM MÚSICA
Lembrei de você
Por lembrar,
E é pena que descaso tão grande
Vele o que foi nosso.
Uma flor a mais
Te daria
Pra ganhar teu sorriso
E, de novo,
O resto do teu corpo
Acariciar meu jardim.
E por falar em fim
Tenho pena
Daquilo que vejo
Que és sem mim
E, por chorar um fim
Tenho pena
De tudo aquilo
Que pesa em mim.
Por lembrar,
E é pena que descaso tão grande
Vele o que foi nosso.
Uma flor a mais
Te daria
Pra ganhar teu sorriso
E, de novo,
O resto do teu corpo
Acariciar meu jardim.
E por falar em fim
Tenho pena
Daquilo que vejo
Que és sem mim
E, por chorar um fim
Tenho pena
De tudo aquilo
Que pesa em mim.
ELISÂNGELA
Insisto no teu jeito
Teu:
Coração frio
No meu inverno
Vadio,
Luz na noite de breu.
Insisto no teu jeito
Teu.
Tantas argolas perfeitas,
Feitas,
Ventando teu vestido
Pincelando teu cabelo
Esboçando teu ouvido,
Tantas argolas perfeitas,
Feitas.
Você dança no passar,
Levando o ar
Pra passear;
Deixando aviso no cheiro,
Eterno quadro passageiro:
"Suspiro pode matar".
Você dança no passar,
Levando o ar.
Teu:
Coração frio
No meu inverno
Vadio,
Luz na noite de breu.
Insisto no teu jeito
Teu.
Tantas argolas perfeitas,
Feitas,
Ventando teu vestido
Pincelando teu cabelo
Esboçando teu ouvido,
Tantas argolas perfeitas,
Feitas.
Você dança no passar,
Levando o ar
Pra passear;
Deixando aviso no cheiro,
Eterno quadro passageiro:
"Suspiro pode matar".
Você dança no passar,
Levando o ar.
DESENHANDO MEDIOCREMENTE
Desenhando mediocremente,
Na ponta do cigarro,
A matemática dos filhos -
Um amor moldado em vácuo,
Sombras e capins,
Castelo de cartas na borda do furacão,
Amor etéreo assanhando a carne
Em acordes alecrins.
Engolindo em densidade etílica
A segunda-feira,
Encarnando sonho de rio
Em conter mar,
Adivinhando errado
Os meandros
Do vagar:
Fantasma barbado
Aportando maresia
Nas novas
Canções de mar.
Na ponta do cigarro,
A matemática dos filhos -
Um amor moldado em vácuo,
Sombras e capins,
Castelo de cartas na borda do furacão,
Amor etéreo assanhando a carne
Em acordes alecrins.
Engolindo em densidade etílica
A segunda-feira,
Encarnando sonho de rio
Em conter mar,
Adivinhando errado
Os meandros
Do vagar:
Fantasma barbado
Aportando maresia
Nas novas
Canções de mar.
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
ATRÁS DAS PORTEIRAS, POEIRAS
Tenho tantos corações
Que perdi a conta:
Tontos corações no descompasso
Por trepidantes caminhos -
Filho de terra roxa,
Devia, desde cedo saber do amor
Roedor nefasto
Adoentando o coração
Do trouxa.
Minha mãe
Reze por mim
Aquela receita infalível
Pro filho,
Isento do vil peso metálico,
Ao ter de andar nos trilhos.
Tenho tantos corações
Que perdi a conta:
Uns doentes
Da sovinice de não poder
Se perder da estrada;
Outros,
Na saúde fátua
De chaga mal curada.
Tenho corações:
Não ligo em perder pulmões.
ENTRESSAFRA
Não escrevo mais o verso
Que poria teu peito a pensar
Em mim -
Os peitos pensam um pensamento
Duas ou três vezes
Mais pensamento que o vento!
Não escrevo mais verso e,
Ao inverso que não escrevo,
Versejo, te vejo, percebo-te
E vejo,
Percevejo.
PROMESSA
Espero o dia
Em que nos encontraremos além
De todos os zodíacos,
Economias
E laços de família;
Além de todas as prisões.
Saímos pela tangente.
Bendito seja o tempo
Cessado o espaço:
O dia em que serei
Novamente
Teu ângulo reto.
EPITÁFIO DE DOMINGO Nº 02
Explica-me toda essa tristeza
Que desce, junto à noite de domingo.
Pudera eu fazer feliz
Cada pessoa que me cerca.
Meu amor não se presta a nada.
No máximo, é sagaz
Feito os bêbados
Que vêem demais.
OS CATADORES DE PAPEL
As infinitas linhas da mão,
Noutro tom,
Buscam pássaros
Claros, no sol escuro do asfalto -
Quadro de fumaça e carvão
Apontando a primavera.
Em pouco tempo,
A desnutrida legião bravia,
Em moribundo cambalear,
Esgueirará entre fios de vômito
Exalando flores, de tanto perfume,
Fétidas.
Os olhos embaçados
Entre anos e sujeiras
Aprenderam novas cores
No preto e no branco -
Pernilongos encenando
Beija-flores
Em cinema mudo.
.
Seu Antônio fez uma casa
De embrulho e formulários
Bem perto do redemoinho.
Dentro dela, esconderá mosquitos
Até o céu permear,
Das porcelanas do segundo andar,
O seu chão.
A cabeça,
Sem cheiro nem dentes,
Em pancadas, surdamente,
Tateia a escuridão.
No pó de tanto sucesso
A mais feia cabeça
Talvez seja coração.
Seu Antônio fez uma casa
De embrulho e formulários:
Bem perto da barroca,
Uma casa de papelão!
Verá netos e peixes,
No rio de ureia,
Policiando seu jardim
E comendo seu portão.
sexta-feira, 1 de setembro de 2017
CONSPIRAÇÃO
Em meio a sonhos
Já sonhados
No norte de Carolina,
Em Marraquexe,
Cortando o deserto,
Esperando o sangue de deus
E seduzindo o sol
Com olhos quase dormidos.
No meio da confusão
Neal Cassady falando gestos,
Dando início
Ao movimento dos átomos,
Mudando a cor da América,
Enquanto, no canto,
Kerouac, em silêncio,
Conversa com suas bruxas,
Na penumbra.
CANTADA
Cantas e me deixas
Absorto
Lânguida sereia deslavada.
Antes de ti, me deito,
Me finjo de morto
E lhe fisgo
Na madrugada.
CÂNDIDA
De uma casa
Cercada de promessas
A menina parte,
Traquinando um
Pular criança.
Deixa o portão aberto
E todas as margaridas,
Dálias, cravos
E rosas
Irão crescer
Assustadoramente
Frente a seus olhos,
De tal forma
Que os contornos
Fugirão de suas pupilas,
Dilatadas,
De um tentar regar
De mando antigo,
Cuidadosamente enrustido
Nas miopias feitas
De chegar.
sábado, 26 de agosto de 2017
METEOROLOGIA
O poeta tapa o sol com a peneira
E guarda um pouco de chuva
No guarda-chuva
Para a manhã que estiver
Triste;
Depois chora escondido
Um choro que aprendeu
Sozinho -
Que tonto, o poeta! -
Todo mundo acredita
Na previsão do tempo.
O EVANGELHO SEGUNDO A VERDADE (Versículo Um)
Ele, o dia todo na lida,
Ela, o dia todo na vida.
Deles nasceu um filho
Que queria por o mundo nos trilhos
E se chamava Deus.
Morreu de incompreensão e cirrose
Na porta do botequim,
Deixando uma ínfima dor de cabeça
Nas cifras do turco Ibrahim
E se chamava Deus.
ZÉ VIRAMUNDO
A chuva lavou as paixões
Dependuradas
Nas paredes do velho quarto.
Lembro-me, agora,
De um amor
Esquecido, no mundo -
A aragem da terra lavada
Convidando à loucura
Da estrada:
Junto flores no embornal
E chegarei na estrela d'alva
Colorindo-me a manhã
De acordar-te o teu quintal.
Moro no fim do mundo,
Lá onde o vento leva toda história,
No bolso do casaco-sombra-triste
Um fio solto,
Tua memória.
PREGUIÇA
Não sei mais escrever
De tanto bobo que sou -
Tento sujeira!
Os pés de anjo
Flutuando navalhas,
Colorindo algodão
De besteira.
Não sei mais escrever
Esperança de chuva
Quando o céu clareou.
Ponteiros por mim,
Parindo bobeira,
Não sei mais escrever
De tanto bobo que sou.
PETER PAN
Já tenho a idade de um pai
Que filosofa feijão e inflação.
Deve ser mesmo complicado
Ser herói
E até fácil
Estrangular flores
Que teimam perfumar
Pétalas-pássaros
No vento assoviando
As grades de gaiola,
No lado de fora.
A maldição de ter o chão
Até onde a vista alcança,
Ter asas assanhadas
Nos pés dormentes,
Numa terra tão bonita,
De moças tão bonitas,
Tão bonitas.
Meu livro mais antigo
Tem a idade de um filho
E ainda não sabe andar!
Já tenho a idade de um pai
Mas, há tempo,
Já não sei chorar.
Sou forte até quando quiser!
DENTRO DA CHUVA RALA
Dentro da chuva rala
Esperando desenhos de sol,
Engolindo a poeira dos sonhos
Dançando o mastro do lindo.
Cantando um novo jeito
Em tomar os pés da música
E partir o coração de fada
Da manhã,
Até que o mesmo peito
Seja mais trago esquecido
E a navalha abrirá romãs
No vento cheiro da noite
Amanhecendo
E alvorando flamboiãs.
MENDICÂNCIA
Deixa-me confortar o pensamento
Na imensa placidez dos teus seios;
Deixa-me cheirar roça de algodão à tarde
E sonhar, perdida nas nuvens,
A musica que os ventos trazem dos desertos:
Na sombra dos teus altos seios brancos
Meu mundo tem conserto.
POESEJO
Queria,
Ah, como queria
Minha poesia
Morta de caligrafia,
Viva de vida vadia!
Seria,
Ah, como seria
Paixão de rosa
E estrume
Ventando perfume!
O sol sem regras
Brinca uma tigela azul
Tapando pios
Dos rouxinóis.
RETICÊNCIAS
Doravante, te amarei
Em reticências -
Você me lê:
Não tem clemência.
- Em que você está pensando?
- É que... Deixa pra lá...
CHUVA DE VERÃO
Estabeleço estratagemas
Nas lágrimas das musguentas
Telhas, tangentes
No velho chapéu
Do paiol.
De súbito,
Um vento trará, no gosto,
Este cheiro
Da dor perdida a um ano,
Uma vida,
Uma paixão atrás -
A dorandorinha
Na janela azul
Que a nuvem abrir ao céu,
Ainda quero comigo:
Mesmo sabendo do sol.
sexta-feira, 4 de agosto de 2017
ARQUÍLOCO
Caíram todas as areias do tempo
E agora temos um límpido vidro
Para brincar de esconde-esconde
Com toda nossa saúde.
Deixe sua flauta
Engolindo as notas do vento
E vá vomitar suas vísceras podres
Noutra freguesia.
Também jogo vermes na sala limpa!
Aprendamos por vias tortas
O rápido caminho
Em matar de carinho
Ouvidos atrás das portas.
PREVIDÊNCIA
Dormindo cobertores
De notícias atrasadas,
Lastimando causas
Sem efeitos -
O jornal publica
Mendigos sem cores -
O asco preto e branco
É complacente
Com o café da manhã
Do bom burguês.
MENINA
Do pentear do teu cabelo
Sentir maravilhar-me
Do peso do teu pelo
Quero ressaquear-me
De toda beberagem
Consentir em emulherar-me
De tua marotagem
Sim, mulher -
Menina -
me quer
De quina
e desquer
De esquina.
sexta-feira, 28 de julho de 2017
HORA DE COLHER AS TEMPESTADES
Os versos estão quebrados
Na calada desta noite morna:
Poetas desesperados vêm comprar cordas,
Balancear em árvores surdas -
Cisco pendulando
Um glacial olho de lua.
Uma vela pra Deus
E uma reza ao Cão
Quando o vício não mais destruir
E quando não houver mais vícios
Pra se distrair,
Rodamoinho roda pião
Limpa o terreiro quem tem arado,
Quem não tem é empregado:
Paga a vida a prestação -
Uma vela pra Deus
Velar a poesia
E uma reza ao cão
Dançando algaravia.
O SAMBA
No balcão
Espera frestas
E de frestas
Rompe promessas -
Cavacos,
Lenhas cheirando
Incenso roto,
Tornozelos
E o apelo de criança:
Só água
Limpando
Árido compasso,
Germinando
Últimos passos,
Rumando dança.
MODÉSTIA
Falo e amo pouco;
Sou dado a pequenos amores
E já faz um tempo
Que o vento vem
Intimidando minha voz.
Certa vez disse: "Pra que falar?"
No meio de um amor.
Se era pequeno ou não
Não o digo.
Além de falar e amar pouco
Suspeito serem meus versos
Aleijados
Como se cantasse rouco.
sexta-feira, 21 de julho de 2017
GENTE QUE FAZ
As mãos que trabalham a terra são sujas.
Jamais afagarão a assepsia
Esbanjada nos sorrisos vendedores de terra,
Em horário nobre, na televisão.
Lessez faire! Lessez passez!
Que nobreza pode haver em mãos cansadas,
Escalavradas, vacilando a fadiga na noite?
- De minha é a terra guardada na unha -
Deus ajuda quem cedo madruga?
Liberdade abre as garras sobre nós!
Prestidigitação na calada da noite:
Hora de plantar e colher; juros;
Rigorosas intempéries de papel;
Safra recorde; escassa hora de comer.
Campanha da cidadania contra a fome!
O Brasil, ridente, se faz com gente
Fácil de se passar pra trás.
Gente se enterra onde não há terra -
A César o que é de César.
BLUES ADORMECIDO DO JARDIM
Noutro planeta
Rumando estações
Equinociais
Em outras eras.
No meio das flores
Abruptamente
Assusto com teu vento:
Poderia eu, Dama Cor De Canela,
Dormir no relento?
Só suspiro
Em resposta...
OBSTINAÇÃO
Jogo o jogo
Com quem sabe jogar.
Só assim, no brilho do fogo,
Vejo alto e sereno
O meu azar:
- Três dedos de veneno!
AUGUSTO DOS ANJOS
As quimeras abandonaram
A primavera
À sorte do chão
O frescor das eras
Invade o esquife:
Cansaço de ser vão -
Hediondamente
Tudo repousa em minha mente.
Inventaram um novo jeito
De fazer poesia:
Os velhos poetas
Estão cansados -
Diriam que é o mal
Da idade.
sexta-feira, 14 de julho de 2017
ARRAIAL
Os saltimbancos evanesciam,
Em cachaça e mortadela,
O pó da estrada.
As mocinhas, debruçadas nas janelas,
Provavelmente,
Sonhavam acordadas -
Não é sede, não é nada
Moreninha,
Só passei para te ver.
PÁLIDAS SOMBRAS
Pálidas sombras
Na cabeceira da cama,
Pactuando, às estacas,
A cabeça do santo
Covarde,
Sem rezas e perdão,
Acreditando em beijos
Facas e coração,
Enterrando ouro
Para penar à noite.
MINHA TERRA
Na parva poesia das ruas de chão
Nas gentes contentes
E nas luzes com cara de festa
Encontra-me renitente
Um pedaço do meu coração.
sábado, 8 de julho de 2017
INSÔNIA TEMPORÃ BLUES
Acordo atrasado para hoje.
Faço questão, acordo.
Se o sol não entender,
Que deite, e espere amanhecer.
Não sonho o sono que não concordo!
SONETO MERCANTIL
Tudo tão visto,
Tão tido,
Tão cuspido e escarrado
Que se pode acreditar
Que todo Rimbaud
Tem seu Harrar.
O poeta não vale um vintém
E que os anjos, lá no céu,
Digam amém:
Um prato de comida e o léu
Ferem o olho de alguém
Acostumado a escarcéu.
Um soneto
Vale um franco no espeto?
DEDICATÓRIA
Um desses poemas é seu.
Se quiser encontrá-lo, encontre-o,
Senão, não se acanhe:
Pode ficar com todos -
Não tenho nada de meu,
A não ser uma fome de bater pernas
Que, para o ano,
Talvez me abocanhe.
NO BRAÇO DE UM VIOLA...
Canto que me soa estranho
Como se a dor maior
Fosse um dó menor
De estanho.
Canto como se a vida
Suasse em contratempo
Sincopando em si alento
De ser vida sustenida.
VIOLA CAIPIRA
Hoje a noite eu vim de longe,
Tua alma na garganta
E o vento na sacola,
Entendendo pouco
De plantar amor sublime
Em menina de escola -
Só a alma vaga
De tanto mundo tonto -
Quebranto meu
É pra você
Quando você passa,
Sem graça,
Ah, pudera tu
Em mim te ver!
Canarinho na janela -
Passarinho assanhado -,
Tem tanto olho no mundo
E eu morrendo engaiolado
De outro ver
Teu ponteado.
sexta-feira, 7 de julho de 2017
SALTIMBANCO
Se você não mais gostar de mim
Pode ser-me um grande mal.
Depois de mascar pimenta e sal
Vou chorar pinga e alecrim.
Se você não mais gostar de mim
Vou ser louco medieval,
Vendo o mundo tão legal
E dormindo no capim.
Pode ser-me um grande mal.
Depois de mascar pimenta e sal
Vou chorar pinga e alecrim.
Se você não mais gostar de mim
Vou ser louco medieval,
Vendo o mundo tão legal
E dormindo no capim.
VITROLA
Guarânias,
Rancheiras,
Huapangos
E chamamés.
O peito rompe pra trás,
Um coração esquecido
No meio de cachaças e bolores.
Um pouco vem à tona
Nos bem-quereres
De menino:
Poeiras em livros velhos;
Velhas caligrafias;
Beijos esguios -
Carinhos criança,
Rancor sincero,
Hoje avô -
Filosofia de teia de aranha
Ou compasso de um bolero.
Pode um peito reclamar
De uma outra triste dor?
Uma agulha
Fincando de chiado:
Lembrança resguardada,
Em disco riscado
Recaída.
Rancheiras,
Huapangos
E chamamés.
O peito rompe pra trás,
Um coração esquecido
No meio de cachaças e bolores.
Um pouco vem à tona
Nos bem-quereres
De menino:
Poeiras em livros velhos;
Velhas caligrafias;
Beijos esguios -
Carinhos criança,
Rancor sincero,
Hoje avô -
Filosofia de teia de aranha
Ou compasso de um bolero.
Pode um peito reclamar
De uma outra triste dor?
Uma agulha
Fincando de chiado:
Lembrança resguardada,
Em disco riscado
Recaída.
CARTEADO
Quebro todas as portas no peito -
Sou o diabo mesmo.
Deixe pra mim todas as maldições
Da terra:
O velho truão
Irá rasgar a carne
E entrar criança na nova estação,
Esquecido das dores
Com zap e sete-copas na mão -
Nesta terra
Só se nasce o que enterra.
sexta-feira, 30 de junho de 2017
TEIMOSIA
O alvo espera
Sabendo sua sina:
Um sibilo no ar
E os instantes eternos
Desabrochando
Feito flores.
Beija-me assustada
Como criança que,
De repente,
Se descobrisse
Pisando nuvens.
Beija-me pretendendo
Carinho de relva e orvalho,
Com cuidado,
Para não despertar
O sonho de antigos quadros
Preto e branco:
Nossa luz
Prometendo
Toda nossa história
Já sabida -
Outras camas
E outros jeitos
São pouco,
Nós somos perfeitos.
sexta-feira, 23 de junho de 2017
O EVANGELHO SEGUNDO A VERDADE (Versículo Dois)
Prometeu trouxe o fogo aos homens
E, de castigo,
Teve uma eterna dor de fígado
Esquecida dos homens
Que, no frio,
Esquentavam-se ao redor
De fogueiras.
- Meu filho, não leia muito! Os livros vão te deixar atrapalhado das ideias - disse o lenhador ao rapazola, enchendo os pulmões de ar para apagar a lamparina que iluminava, toscamente, o rude cômodo da choupana.
MR. TAMBOURINE MAN
Atire moedas no meu chapéu
E lhe dou, de mentirinha,
Um pedaço do meu céu.
Irá chover?!
Pra bom leitor, pingo é i
E jota, cabo de guarda-chuva.
LEVIANDADE
Por amar demais
Tudo o que a gente faz;
Por sentir amor
Até morrer de dor;
Por ver que chorava
Tudo o quanto amava
E ainda querer amor
Só mais um pouquinho,
De tanto amor
Ficou sozinho.
sexta-feira, 16 de junho de 2017
CISCO NO OLHO DA TARDE
Delírio de fachada;
Lírio sopra no vento
Colírio desatento;
Lírio desfolhado
Martírio sossegado -
A tarde já promete
Noite ao quintal
E as sombras caminham
Nas compridas pernas-de-pau,
Num jeito tão bandeira
E a gente até suspeita
Que elas gostam de espiar
O lugar onde o sol deita.
O VELHO NO PASSEIO PÚBLICO
Uma reviravolta estonteante
Na alma de estrada,
Desengavetada, em cada brota
Da estação baile de máscaras.
Os rastros, agora,
São arquitetados com alma
De um poético
Compêndio matemático.
Ainda surto flores
No meio da rua
Relevando em conta
Um suposto borboletear
Das calças jeans, ocupadas
Em todos os seus espaços.
Faço o que posso -
Ah, se faço! -
Ainda que tramas de ouro,
No céu de coração
Espete aço.
- Ando de alma no coldre
E, ao mal tempo, saco.
APRENDIZ DE FEITICEIRO
Se eu soubesse lhe ensinar
A ler o Manuel Bandeira
Com o mesmo sem-jeito de quando
Lhe descobria os pudores,
Você teria o lado bom
De minha vontade de chorar
E ficar pequeno.
Aí eu sairia voando
E fazendo caretas às estrelas.
ESTIAGEM
Depois da chuva,
No final de fevereiro
A brisa da tarde
Cochicha-me, nos cabelos,
Que o frio
Irá vir me visitar -
As árvores despem-se
Das folhas
E o céu traz
Um casaco cinza.
PRESTES JOÃO
Minha história terá sangue,
Mas poderia ter tido solE outonos corriqueiros;
Acenos banais em fins de dias -
A volta ao lar -;
A saudável melancolia
De te ver morrer junto a mim:
São meus filhos homens precoces
E tristes.
Minha história terá sangue
Igual a toda aquela que, começando,
Acredita que desiste.
Acredito em meus dedos descarnados
Sabendo trazer,
Aos campos descampados,
O assíduo do olho que assiste
Ao limpo de todo o sangue
Que um dia terá minha história.
sexta-feira, 9 de junho de 2017
INVENÇÃO
Se decapitassem nossas cabeças
Os zepelins chumbados,
No chuvisco outonal,
As praças fariam-se
Fundo de aquário
Tendo a música distante
Dos trovões
E a proximidade
Dos deuses,
O peso humano.
Se abrissem nossas goelas
Os plúmbeos martelos
E deixassem escapar fagulhas,
Os lampiões,
Esperando a nevasca,
Cobririam brumas
E selariam danças fatais.
Um tapete de cascavel,
Na rua principal,
Enrubescido equilíbrio,
Distraído
Em goelas marciais,
Os pés da tempestade.
TORMENTA
Agarre pelo rabo o vendaval
E vá brincando, junto às folhas secas,
Com a primavera, limpando o salão
E, sendo roupa no varal
Ria, se puder, a leveza desse peso.
CARAVELAS
Um menino sem ver o mar
Acredita-o em azul
Degolando borrascas,
Rabiscando em algodão
E espumas.
Talvez teus sonhos
Sejam águas cansadas
E, por pouco que forem,
Céu enxuto,
Dando vazão a pardais
E atormentando canções
Nas grades
Das bocas dos violões.
Um menino sem ver o mar
Em sede,
Nos olhos de chuva.
Um livro de poemas
Esquecido na borda
De uma cratera lunar.
Na areia parda
Uma brisa de menina
E um cão a passear.
Um menino sem ver o mar
Espera caramujos no ouvido,
O ondear fazer sentido,
Ventando praias
E vestidos.
sexta-feira, 2 de junho de 2017
POST SCRIPTUM
Talvez não escreva mais poesia -
Um dia pensei ser o mundo
Uma imensa tigela
Tapada por vidro azul
E cheia de terra! -
Rimbaud desencanou
Aos dezoito
E foi pro meio dos pretos... -
Talvez eu vá plantar batatas -
E seja um vencedor
Dentro de um suposto
Parâmetro conceitual
Machadiano
Que aprendi de ouvido.
Talvez não escreva mais poesia,
Prepotentemente
Supondo que a escrevo.
Não pago a ninguém
O que não devo
E meu peito imponente
Se rasga nos pigarros
Dos relevos.
Talvez tenha olhado demais
Para baixo
E chegou a vez
De embrenhar-me
À sujeira
Da chuva escoada
Nos bueiros -
Talvez escreva, agora,
De chiqueiros.
O ENGAJADO ENGASGADO
Não entendia política
Por opção
E sofria aos que não a entendiam
De coração.
Poeta de rima pobre,
Acabou indo à festa
Numa gravata de cobre.
PROVÍNCIA
Hoje, teu beijo passa longe -
Melodia esquecida -,
E a cidade mal-dormida
Ainda me tange.
Meus compadres?!
Tem gente, por aí,
Teimando sina inglória
Sem saber se irá servir
Triste etiqueta, em livro de história.
sexta-feira, 26 de maio de 2017
NOVA GARDÊNIA
Sempre beijo teus olhos
Feito beija-flor - sempre -
E beijo também um mar
Escondido em meio à noite
Que são teus cabelos, ninando azul.
Sempre beijo teus olhos
Que são da tarde a tristeza.
Se de beijo me rouba o sul
Levemente a tempestade,
Desescondo a singeleza
De um teu ar que é de vaidade:
Sempre beijo teus olhos -
Da tarde a beleza
Das tardes da maresia
Sem saber flor azul,
Sempre,
Sempre poesia.
MARIA DE LOURDES
Maria de Lourdes tinha três filhas -
O orgulho das intempéries
Gravadas em seu magro sorriso,
Mas forte, feito cerne de aroeira.
Maria de Lourdes pegava no batente
Junto ao dia:
Daí arrancava o impossível:
Lingeries;
Calças justas
E blusinhas perfumadas
Enquanto as filhas curtiam
As rebarbas das noturnas promessas -
Eram a sensação no parque de exposição
Das emoções passageiras.
Um conquistador barato
Que sempre se esquecia de anotar
Nomes femininos em canhotos
Mas cultivava ares de colecionador,
Dizia de Maria de Lourdes:
- Fabricante de artigos masculinos
De luxo.
E as filhas desfilavam em círculos
Exalando ao gargarejo
A nobreza das vitrines.
A noite ia alta
Clamando sangue.
Maria de Lourdes tinha por costume
Deitar com as galinhas e,
A esta altura,
Sonhava vestido branco,
Véu e flores.
PLUVIOATIVIDADE
Retilíneo olfato
De telha molhada;
Mansidão desgovernada
Da chuva, rechuvenescendo
No beiral da casa,
Desfechando canção deitada,
Cansada de ter asa.
QUADRA BANDEIRA MAIS UM VERSO PARA MANUEL BANDEIRA
Tinha estrela para a vida inteira
Até, na beira da ribanceira,
Conversar muita besteira
Com um tal Manuel Bandeira,
Então, tive estrelas para brincadeira.
sexta-feira, 19 de maio de 2017
ENFADONHO CANTO
Segure meus rompantes
De poeta mocinha
E veja o quanto a cidade
É pequena.
Até quando teremos estômagos
Para engolir tanta dor
Em cor amena?
INSÔNIA
Assusto-me em saber
O quanto não tenho
Mais medos.
Com a fé,
A paixão e o ar matinal,
Foram-se embora segredos.
Desapaixonado
Atravesso a porta
Beijando o escuro
Nu de estrelas:
- Dia, ah o dia:
Uma doce mentira da noite!
TARDIA MÚSICA
Malvado o cerne de tua beleza.
Uma teimosia de aroeira, tosca,
Quando todas as torres da terra,
Tortas, vomitam tijolos grisalhos,
Os fornos, cansados, teimam filhos
Do ventre dos díspares entardares -
Os frangalhos, os cascalhos e o revolto
De tudo aquilo que resolveram chamar estrada
Assentam, displicentemente,
As curvas do teu colo,
Corando semblantes mármore
Nas eternas musas helenas.
De permanente desvario,
Percorro as sombras do bêbado
Enfastiando auroras,
Comendo telhados escarpados,
Sugando todos os chãos,
Sangrando mandíbulas e rascunhos,
Tentando firmar teu bronze
Que voa.
sexta-feira, 12 de maio de 2017
SONETO DE RECAÍDA
Só um sonho. Foi nada. Só um sonho.
Porteiro das fugas desesperadas
Toco ecos, soco as horas quebradas...
Foi nada. Só um silêncio medonho.
Bulia o pó a sombra desvairada
Tosca, rasgando um sufoco enfadonho,
Felando rastros num estupro tristonho,
Quando os risos voavam em bocas caladas.
Foi nada. Só um sonho renitente
Juntando restos, ordenando as frestas,
Calçando em chumbo cada pé dormente
Mas, depois do estupor a alma resta
Reta, dileta, estupefatalmente
Ciente de que tudo acaba em festa.
AMARGO
Vou me pegar em vícios
Amargando contra o lento
Badalar das horas:
Agora
Inutilidades:
Não vou mais te ver
Daqui a dois,
Três dias,
Anos
Passarão eu sei
E eu, certamente
Morrerei.
O meu amargar
Já foi e,
Constantemente
Virá.
Nada que não seja assim
Tão necessário.
SILVANA
Teus gestos derramam
A cordialidade
Das damas medievais:
Cara-de-mau,
Faceira,
Séria pirraceira -
Tudo o que era
Já não é mais
E o é rapidamente
Feito, de novo,
A inconsequente primavera:
Todo o ar desatina
Suspirando-te brincando vida
Vestida de menina -
Faz bico,
Pisca sorrateira
E a noite borralheira
Desapercebidamente
Ilumina.
sexta-feira, 5 de maio de 2017
INFINITO
O branco do céu de garoa
É brando
Assim como meus versos
Fingem tomar tento -
Tudo se trai na promessa de infinito.
BOIA-FRIA
João Ligeiro era ligeiro
No facão - cortava cana -
E, no balcão era fagueiro -
Bebia cana.
ZARATUSTRA IS ON THE ROAD SIDE
Zaratustra is on the road side
Talkin' about eternity
Tryin' to break the human misery,
But, everybody's going to hide.
All the things is going back,
All the monkeys
Are waitin' the end,
But,
God is dead!
Don't cry children,
Let's go to the mask,
The tragedy is only beginin'
And always returns.
Dyonisos is laughin'
Just like a madman,
But,
The tear is true
And the happiness is blue.
The snake is long like a ring
And the eagle began to sing
The eternal song of the joker.
PANTHEION
Vestimos a roupa, na nova estação,
Como mandava o figurino
E falávamos, muito, todas as línguas,
Do Eufrates ao Silício.
Brusco: uma mudez de mármore
Polindo pedra, brilhando vergonha
Aos nossos olhos, no cortejo,
Contemplando a ponta dos sapatos.
Ah, esses gregos, no sonho,
Não tinham pudor em ser flagrados,
Eternamente, fora de moda? -
Pensamos em vestir folhas de vinha.
sexta-feira, 28 de abril de 2017
KINGDOM
The boy pays
Your price to the devil:
White in
Black'n blues,
Cryin' a life
On your shoes;
Dressed in
The nigger mask
With paradise's bitches,
Lost in the south
Of your soul.
The boy pays
Your price to the devil, to
The white devil.
BALÉ
No dia em que a vida
Não for só preto
E branco
E o céu não tiver tanta
Conta
Em abrir o ar,
Voar, voar:
Passo uma história
Ao teu fim,
Pois sei,
Custas acreditar,
Dançar, dançar,
Dançar:
Não mentes quando falas
Assim,
Traem-te os dentes,
Ridentes, ridentes...
De alma leve
E corpo ausente
Dá dor no peito da gente!
RENITÊNCIA
O ronco surdo do metrô
Irrompe a madrugada à luz do dia.
Pouco a pouco
A noite deixa as ruelas
Aos cuidados dos outros tempos -
Monóxida respiração,
Carbonização moderna
E a todo instante
Os digitais augustos,
Nas praças,
Esquecem instantes -
Cinco e cinquenta e
Um e...
Dois e...
Três...
- Distraidamente,
Um galo canta
Contorcendo os tempos
Que mudaram.
sexta-feira, 21 de abril de 2017
PALHAÇO NA CORDA BAMBA EM DIA DE CHUVA E SABÃO
Pode ser que amanhã
Alguém dê ouvidos ao palhaço,
Mas o que eu contar de mim
Vai ser você,
Ou pelo menos eu
Com falta de beijo
E um tremendo calo
Na memória.
E pode ser que amanhã
Eu morra
Sem um pelo menos,
Mas,
Com um demais
Que de tanto se encheu
E me fez ficar assim
Pulando de canto a outro
E querendo do seu fim
Só eu.
B.B.: SEXTO ANDAR
"E o diabo, levando-o a um alto monte, mostrou-lhe num momento de tempo todos os reinos do mundo."
Lucas, IV, 5
Insistindo teu amor
No meu jeitoTenho-te longe,
No meu peito,
Assim como,
Quer queira ou não,
Minha pele
É teu coração.
Um ódio eterno
Buscando eterno perdão:
Assim sangra minha mão
Sentindo sangue em tua mão:
Minha jaqueta bêbada
Em sereno-madrugada
Tem receio de altura
E de céu não sabe nada.
Se, talvez fosse poeta
E vestisse não máscara,
Mas coragem
Subiria o mais alto morro
E deixaria ao tempo
A aragem;
Vomitaria embriagado
Minha mentira na cidade
Até ruas serem desertos
E rabiscaria - louco tentando pintura -,
Como se fosse novidade
Os teus olhos no céu.
Mas só podendo ser humano,
Iludo verdades no papel
Feito pedra atirada em rio,
Mentindo ao inferno
Um céu de ponta-cabeça
E sonhando cirandas passeando tuas entranhas em tórridos sufocos e emergindo, em cada poro, misturando-se ao léu: sendo brilho de luz, gerando pedras, madeiras, colibris e voando verdades, com coragem de mentira.
"TRISTETO"
Uma canção amarela
Faz fundo à nossa estrada:
Histórias que não mais
Precisam ser contadas.
Que surpresa esconde
O fingir que não se vê?
Olhos baixos, ressecados,
Na sazão - sou eu e é você! -
O desleixo, todo recado,
Sazona em despaixão.
sexta-feira, 14 de abril de 2017
FICAR EM CASA É NADA
Assim como é nada
O mundo depois de ganho.
Ah, o bom mesmo é estrada -
Ter as coisas tão rápidas
Que não têm outra chance
Além de serem tuas:
Ganhar o mundo
Perdendo tudo
É que tudo vai crescendo,
Sendo mudo,
Mudo tudo.
CEIFA
Faca ingrata
Presa em minha mão
Pacata.
Flores só se dão
A quem as vale.
E vale uma dor
Quem força o amor
Da solitude de gardênia
Abortada do mar
Do jardim?
Toda a infinitude da arte
Dá cor a rosas
E orquídeas
E pétalas de cor
Mas e o nu
Do talo?
ARRANJO
Todas as flores
Estão no jardim
E, às vezes, a
Alma, de sóbria,
As trás pra dentro
Com pretensão carmim.
sexta-feira, 7 de abril de 2017
SONETO INCORRIGÍVEL
Chegarei até você pelo caminho errado,
Terei olhos cansados e sua mão
Percorrerá os sonhos dormidos,
Escondidos em meus cabelos,
No cheiro agudo, sussurrados pelos
Pinheiros outonais,
Tanto fez, tanto faz dias estranhos
E seus olhos castanhos serão o céu
Ao léu, trespassando as cortinas sem graça
Piscando minha vidraça, e então
Terei a chance de, igualzinho, errar
Uma vez mais
E chegarei até você pelo caminho errado
Se não chover amanhã cedo, tarde demais.
FERNANDO PESSOA MARESIA
Não chore, não chore,
O mar é o caminho
Na beira da praia,
E, nos pés
A sede de tantos navios
Bebidos de mar -
A cantiga de tantos marujos
Quanto o mar precisa
Para o sonho aportar.
EPÍLOGO
Sorria na despedida
Menina mal agradecida;
Esqueça que todo choro
É feito só de partida.
Esqueça a minha mentira
E sorria, vadia
É a vida. A minha verdade
Varia. Sorria.
Tomara que um vento forte
Levante sua saia!
CANTIGA
Nega,
Se tens olhos tristes
E piscam por mim
É meu fim,
Não diga!
Negue
Meus olhos nos teus,
Prefiro o adeus
A te morrer.
Nega
A ida quando vai,
Se vai, mesmo assim,
Fica e
De meu peito sai
Sem porta
Só pra doer
E volta.
RESSACA
De vento
E quando a aurora principia
Arrebento.
E os pés gastos
De estrada
Riem chuva à toa
E mais nada.
terça-feira, 4 de abril de 2017
sexta-feira, 31 de março de 2017
BRISA NOTURNA ONDULANDO O CRUZEIRO
Tudo está quieto lá fora
Guardando uma promessa
Que, por hora,
Trai-se em longínquos latidos:
Mundos escapando
De minha tempestade
Cínica, frágil, mesquinha,
Ruminando a rapacidade
Do teu nome traído
No hálito da noite.
Penso sempre havê-lo esquecido
E, devagar,
Distantes conversas pardas
De mundos corriqueiros,
Mais mundos que os meus,
Despertam-me o cheiro
De teu vestido:
Era só viver sem esperar
Eternas pernas, jeitos e feitiços
De tapas e ouriços
Passageiros, agora,
Tudo está quieto lá fora.
AINDA
Ainda
Toda esta vontade
De chorar facas,
No fundo
Moleque turrão.
Dois pássaros
Voando -
Um céu
E todas as línguas -,
Afinal,
Deus é grande
E o mundo é pequeno,
Não é?
A última terra...
ESTRAVIO
Dos meus sonhos
Vou fazer cristal,
Tocar com cuidado
Uns restos desvalidos
E brincar,
Na mais sutil harmonia,
Os nossos ecos,
Rindo desenganos.
Para quando quebrar
Os pés de vidro,
A descoragem vingar-se
Tarde demais -
Escapando todos os cavalos
Na boca da noite,
Num cheiro de campo
E de lua,
Longe...
Longe de casa -,
Hedionda,
Pelas asas.
sexta-feira, 24 de março de 2017
ALVORADA
Tentei falar tua língua
Depois de morar muito
Em meu país.
O pó cobriu meus olhos
Enquanto olhava
O vento na estrada.
Contou-me um passarinho
De mentira engaiolada:
- Ela hoje vive em terra feliz.
Vou matar os passarinhos, todos!
Rasgar a golpes de faca
Meu coração jogado no mundo.
Vem o olho, brilhante,
De tua terra espiar azul
Em meu céu profundo.
Leve embora aquela dor que me deixou,
Não me serve mais, o vento secou.
Em toda estrada,
Sóbrio,
Meu fígado caminha.
Hoje rio
De uma dor que não é minha.
SONETINHO PARA RAFAELA
Caneta parece nave em jornada
Num caminho que vai até o céu
E, desse jeito, as linhas no papel
Podem ser, perfeitamente, uma estrada.
Então, o céu pode ser uma história,
É só a nossa mente imaginar,
Já que, por certo, o tempo irá guardar
A tinta que será nossa memória.
Guardar até pode, mas não prender -
Sua sina está fadada a voar
E assim condenada a livre ser,
Pois um dia o vento pode cantar
Baixinho, no ouvido de quem ler,
De uma outra vida, o despertar.
LITORAL SUL DESERTO
Falei de mim até cansar
E todo mundo ouviu
Até cansar
O mar
Secou-partiu
Falava de mim até cansar
O mar
A pedra vil
Ondas mil
Minha cabeça
E os meus pés
Os pés meus
E a cabeça minha
Mundo anil
Falei de mim até cansar
O mar
Cansou-cuspiu
Olhar
E ninguém viu.
sexta-feira, 17 de março de 2017
MAROTAGEM
Quando eu ganhar dinheiro
Terei uma casa
Com chuva no jardim
- Então, verei você abrindo o portão
Sem guarda-chuva,
Toda molhada!
ANZOL
O quente da vida nos teus pés
Fascina minha boca
A beijar teu caminho
E morrer em ti, criança
Marota,
Enganando a sede
De minha alma louca.
Se hoje tenho
Enlouquecida a alma
E morta a boca,
É castigo
De querer pé sem juízo
Em minha tarde calma
Onde só eu sou preciso
E o perigo
É brinquedo que funciona
Teu amigo.
INSPIRAÇÃO
Sou todo
Agudo de instantes:
Ato fisiológico
De por pra fora
Todo espinho
Passageiro.
Bêbado no pré-sono
Vê melhor as voltas -
Solto ir e vir.
O cachorro nauseabundo
Busca no amargo
Das ervas
O vômito.
PALHAÇO NA CORDA BAMBA EM DIA DE CHUVA E SABÃO
Descubro-me
Beijando Assis
De todos os lados
Na brisa malsã
Que não é noite
Nem manhã.
Pago o preço,
Jogo os dados,
Perco
E ganho tombos
E rugas no canto
Do olho
Vermelho,
No beiço seco
Estorricado beijo
E a lua parece um queijo,
Fazendo ciúmes
Tendo casa pra sonhar
Na minha casa:
Quem nunca fugiu
De casa
Cresceu o coração,
Definhando a asa
Palhaço na corda bamba
Em dia de chuva
E sabão.
sexta-feira, 10 de março de 2017
AS NOVAS VACAS
Não abrem-se as portas,
Só a vista
Quente,
E o úmido
De um céu com raiva,
Aqui onde as filhas crescem
Os clitóris
Do mundo
E desaba o tempo:
O animal apara
O pouco
Que resta
Para o novo pasto
E nascem filhos
Que crescem.
ACALANTO DE HORA VAGA
É fim de estrada mesmo
E eu já nem vejo Deus,
Mate-me agora
E reze depois.
Minha busca tua saliva
Já não têm religião
Cuspa meus olhos
No fel da tua luz.
Nossos estômagos, ao avesso,
Ruminam lençóis de chaga,
Dentre as vidas de outras vidas
Acalanto em hora vaga.
Vagabundo que eu sou,
Já não encontro paz
Na fenda abrindo teus olhos
À impiedosa manhã.
Vagabundo que eu sou,
Eu sou
Teu amor jogado fora
Sem o meu consentimento.
Vagabundo que eu sou,
Eu sou
A sombra da minha risada
Em teu arrependimento.
CANÇÃO DE AGOSTO ÚLTIMO
Passaram-se águas
E luas vermelhas na borda do mundo;
Cachaças tortas,
Fumaças no caminho errado -
Cigarros de palha -:
Compadres!
Capins na madrugada,
Atalhos
Que demoram pra chegar
E, nestas coisas
De beira de rio,
O tesão
De sermos velhos,
De termos filhos
E de termos segurado
Alguns bodes.
sexta-feira, 3 de março de 2017
ESTAÇÃO
Confabulando a trama das irmãs,
Submetendo marés e cios
Ao ócio das novas noites
E forjando a chave das vidas
E das plantas,
Que quase escapa
Num ocaso lunar
Ou nos adereços infindáveis das eras
Despertas à ceifa do piscar,
Espantando o que resta das primaveras.
PAPEL MEU
Papel meu
É o que me sobra
Não nego!
Prenda-se a mim
O que é meu
Na sutileza do prego.
Choro depois
De dor ou de vida,
Do que for carne
Apodrecida
De sabor!
ÁGUA-CLARA
À menina dos olhos
Do poeta
Um amor mais
Que amor
Contentando-se em
Orvalho
Fingindo lágrima
De flor -
Serena paixão
Discreta.
sábado, 25 de fevereiro de 2017
URUTAU BLUES
Música sonâmbula
Dos angicos pelados
Ecoando sonhos
Às linhas viciadas -
Um dia os homens as chamaram ruas -
Tristeza de moeda
Brilhando mais que lua
Sabendo equação de queda.
PREDICADO
Beijo meu
Um beijo teu
Na minha gente,
Só se flor
For flor de maio
Em abril descrente...
Vou vestir a roupa
Pra ganhar dinheiro
E esperar de passarinhos
Passozinhos
Passageiros.
Esperar de moças
Filhos;
E de estradas
Trilhos;
E de avião
Fumaça;
E de morena
Graça:
Só...
FAÇO DO CÉU
Faço do céu
Uma porca poesia
Desmedida;
Poesia não-vida,
Casa com janelas,
Sacrilégio
Nosso
Que mastigamos
Aragens
E vomitamos
Trens-de-ferro
Em tapetes.
sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017
CONSELHO
E então, moça,
Como estão as estrelas
Que te deixei?
Cuidas bem delas?
Tantos mundos soltos
Precisam de carinho...
Olha lá, não vá dormir
Na vigília -
Teu mundo pode perder-se,
De novo,
No meu céu escuro:
Sou covarde, sou covarde
Ou, no mínimo,
Quando volto pra casa,
Na madrugada,
Só são estrelas que te deixei
A sombra nos meus olhos?
HELEN'S BLUES
Helen is on your best side
Loockin' to the lights
Shinnin' in your hair
In the mirror,
When the heaven
Moves to the side of sadness
In the sea.
The foot in the sand
Of sideral winds,
Makin' your love
To be the beginnin'
And the wave's pray
Of your boat
Coloured by gray.
POESIA PROIBIDA
Se uma flor boba
Caísse dos teus pés
Etéreos,
Feito samba clássico,
Morreria tonto,
Sem querer saber de vida.
Mas flores
Não sonham besteira -
Pelo menos acredito -,
E, acreditando bobeira,
Vivo lúcido
E aflito.
Se uma flor morena
Fosse meu amor e só,
Deixaria teus cheiros
Secretos
Brincarem açucena
Só e louco,
Louco de dar dó
Na serena trama
Amena
De morrer
Na tua pena.
E,
Se morena fosses
Minha,
Por certo já era,
Mas não me convinha.
sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017
LEMINSKI'S HAPPY BIRDDAY
O samurai bigodudo
Aprendeu dos pardais
A arte dos sonhos curtos
Maiorais.
Pinheiro no Japão
É pinheiro na contramão.
Se acaso não chover
E se deus cooperar
Vai se praguejar de poetas
O chão do Paraná.
Longe, quem sabe,
Partam caravelas
Mas hoje, Leminski,
Pra mim, o vento sopra velas.
SEM-CHÃO
Um prisioneiro
Gostando da gaiola -
Essa não é a covardia
Enroscada, sinuosa,
No meu ombro?
Você morreu!
E como ainda beijo
Tua boca
Sem acostumar-me aos vermes
Passeando minha língua.
A hora que o trem parar
Vão achar teu corpo -
Perdido de todos os amores
E velado por mosquitos!
Menina, a cidade acabou!
Uma lenda assustadora
Tem-me como prêmio
Quando a escrevi
Com vontade de sufocar,
De morte,
O começo de nosso passeio
Entre os moinhos de vento!
Mate-me e tenha mais razões pra cantar
Que a vida!
Tenho dificuldades
Em aprender - talvez te olhando...
- Espelhos.
HAPPY-HOUR
Joguei meus amores ao vento
Em versos delirantes
Com sensibilidade, calmaria e pensamento
Dos cantores de restaurantes.
ENTARDECER
Não são só nuvens
Lógicas;
No estreito do pálido
Ocaso
Uma enseada
Se desenha
E as andorinhas
Não-contentes
Do verão
Beliscam de perto
Nossa mais improvável
Paixão,
Talvez
Um beijo
De cabeça pra baixo,
Talvez -
O triste desejo.
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017
DUELO AO POR-DO-SOL
Poderia até ter me perdido -
A falta de atenção quando
Se tem pedras
Na mão -:
Atirei na hora exata
E hoje ando escondido.
Faço versos, e daí?
Atire agora suas pedras
E pergunte depois.
ANGELUS NOVUS
Alguém levou meu sorriso -
Talvez um passarinho leve,
Voando rápido -:
Que leve!
Outrem o desenhou.
Fico com minha boca
Aprendendo às próprias penas
O grito que me sobrou.
DUAS ESTRELAS
No bojo do pinho uma sede
Desenhando miragens de orvalho,
Colorindo de lua o jardim,
Ansiando aceno de galho.
No bojo do pinho o feitiço,
Em reza mal acabada,
Esperando recair à flor
Um beijo de asa quebrada.
O cheiro de nuvens
Esconde a lua
E perfuma cordas
De solidão.
O céu tão perto
Assim da rua
Deixa tão alto
O portão.
Duas estrelas,
Só de pirraça,
Piscam faceiras
Em tom de punhal profundo,
Que vem queimar,
Em febre cachaça,
Um já torto peito
De um menestrel vagabundo.
sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017
UM ÚLTIMO FIM
Minha mais precoce morte:
Matar-te pela segunda vez.
Domingo à tarde vai ser triste:
Complexo de cannabis;
Vias interditas;
Medos de espelhos:
Restam-me Assises
Sem Franciscas
E, também
Sombras de outrem
Na sombra
Do não querer acender a luz.
Garganta tapada de cigarro.
Só cigarro?!
- Ar viciado.
THE LAST SONG OF THE JOKER
I'll be back
On the streets
Without my name.
Who knows
The price
Of the fame?
I'm singin' in the game,
The joker divided
For one love and
One hundred thousand
Jokes in the water closed
In the rain's day
With soap on your feet.
You're so sweet
And I meet
The fall.
MOLECAGEM
Versos simplesinhos, simplesinhos,
Crio-os com cuidado
De quem cria passarinhos -
Perna fina, asa quebrada!
Versos simplesinhos, simplesinhos,
Vão-se embora com cuidado
Com que voam passarinhos -
Vida leve, morte nada!
Escrevo como o menino
Que esqueceu a porta da gaiola aberta!
MARIA
Hoje o dia não está pra peixe,
Nem pra poesia.
Um que de Maria
Me embaraça
Onde há fumaça.
Com todos os reveses de praia,
Ir e vir sem ter porque,
Só Maria me desbota,
Me nota e me arrebata.
Hoje dia de Sofia,
De Luzia luz de sol,
De Luana praia
E de mar que fosse
Onde o mar ia.
NÃO TENHO NEM FIM NEM MEIO
Não tenho nem fim nem meio
E hoje pago pra ver.
A lua é irmã
E os amanhãs
Têm lei a favor.
Eu que sou rei
Costuro tripas
Em meio a brumas
De sábados
E cachaças vãs,
Sabendo rumos
Dos prumos
Desatentos dos avós,
Esperando árvores
Noturnas,
Tortas,
Das conversas pagãs.
O amanhã tem suas leis
E a vida se mostra
No contra e no a favor,
Vida e torpor
De carvalhos distantes,
De velhas romarias
Em estradas esquecidas
E assombradas.
sexta-feira, 27 de janeiro de 2017
TEREZA
O coração de quem vai embora,
Um verso rápido,
Um medo da mão dormir
E acordar tarde.
Seria fácil
Se soubesse os desígnios,
O preço de nosso atrasado
Esbarro.
Seria fácil
Se fosse lua de colheita,
E se, torta,
Não doesse tanto
A ceifa, mas,
Não se tendo certo
A ciência das barragens,
Temos de levantar cedo
E estarmos atentos
Aos brotos
Dessa época de flores,
De belas flores.
O coração -
Vá entender os corações! -
Sai leve pela porta
E deixa o músculo:
Os cachorros inspiram choro
Abanando os rabos e eu
Desaprendendo
Sou todo
Músculo triste.
SONETO COMO TEMA PARA PAGODE
A nega xingando o vento:
Não há ciência exata
Dos teus pelos de mulata
Que ouriçam o relento.
A nega com passos de gata,
Dengosa no escuro,
Em gesto de mãe - esconjuro! -
No claro, preguiçosa mulata.
Vai fazer bolo e carinho
E pretinhos, talvez...
Exato feijão e toicinho.
Depois do resguardo, talvez
Despertem-se do cavaquinho
Aqueles quadris 'tra vez.
sexta-feira, 20 de janeiro de 2017
O EVANGELHO SEGUNDO A VERDADE (Versículo Oito)
Meu pai, José,
Minha mãe Maria
E o mundo cheio
De minha cabeça vazia.
As nuvens prometiam sonhos
Desaguados em vômitos.
TRISTE CARNE
Maria era bonita
Por uma ou duas coisas
Que não sei.
Beleza sentida de não-ver.
Diziam que Maria havia chorado muito -
Seu rosto tinha mesmo um seco.
Todo o agreste de Maria espremia o peito e,
O que primeiro parecia rude,
Depois deixava a gente menino.
Mais que pátria, Maria era infância -
Chão que a gente leva até o fim
E usa quando a vida aperta a garganta.
É... Maria deve ter chorado muito mas,
Ver-sentir-estar perto de Maria
Era árvore ancestral guardada;
Galho e vento na quase nunca combinação de volta;
Querer chorar de vontade alegre -
Um pouco do seco de Maria
Era ter pequeno um segredo de deus
E não saber muito o pra quê.
Maria tinha a chave e não sabia,
Ninguém também não.
O adestramento cínico de feto e ataúde
Agonizava no ar de pálpebras
E trejeitos boca-mão-simples estar de Maria.
Maria estava sem mais querer
E este nascia feito rugas do seu rir.
Rir Maria era o mundo com cachorros,
Brinquedos,
Medos de escuro
E coragem de morte;
Era entender o mar de praia e o de fome:
Maria era navio escondido;
O segredo do escuro do Sol no outro lado -
O lado de cá -;
O cochicho do beija-flor no vaso murcho -
Outra língua.
Um dia Maria chegou sem porque
E trouxe a chuva -
Inventamos a roça
E aprendemos a chorar -
E, sem porque
Maria foi embora:
Teve um seco de falta
E de ser grande.
Depois a chuva aprendeu Maria
E nós não:
Daí nasceu a carne.
sexta-feira, 13 de janeiro de 2017
SONETO PERDIDO, MAS ACHADO
Mulher foste, sem dúvida, a mais bela
Na beleza vã, que é minha beleza -
Sempre dormindo e com uma franqueza
Leviana, sonhando-te, te vela.
Hoje, talvez sejas não mais aquela,
Andas desprevenida de surpresas
E, sempre, a mais sutil delicadeza
Disfarça a transparência da sequela
Desperta ao leve toque da retina
Nossa - e tua perna treme e eu sentado,
Vislumbro, mais que mulher, a menina
Assustada, correndo e, assustado,
Tremo, peno, enveneno, na surdina,
O quanto a beleza havia acordado.
POUCO, MUITO POUCO
Todo um paraíso solto no ar
E beijamos o infinito
Por pouco
E por pouco
Muito loucos.
Fugiram eras,
Quem sabe aquelas
De navalhas
E pasta de dente.
Temos um medo tosco
De carne
E serpente,
Do éter no
Eterno,
Sem vento
Simplesmente.
Seríamos pós
Do que somos,
Mais que isto,
Dementes.
PESCADOR
De nosso beijo estrangulado
A sabedoria dos avós:
O fermento exato do pão
E a maestria do formão.
Nosso amor não é de livro
Nem nossa sina estelar,
Muito menos de televisão
E, se quisermos,
O melhor da festa é esperar.
Quando o inverno passar,
Se você quiser,
Verá flores
Que nasci pra você
Do meu coração
E rirá -
Criança que és -
Da minha pretensão.
Bobos talvez...
Que seja!
Temos o mundo pra nós
Igual a moleques
E brinquedos.
O resto já sabemos
E são segredos.
sexta-feira, 6 de janeiro de 2017
GILLES DELEUZE
Jogou o peso da vida
Numa cartada irrisória.
O diabo sorriu matreiro,
Mascou a bagana
E mostrou um full de ases.
Estrela bailarinas
Sibilam quintal afora.
ARTHUR RIMBAUD
Vou para o Egito no século passado
Ver a noite arrastando as almas
Para além das portas do crepúsculo.
A Esfinge olha impávida.
- Cheira a carne estragada lá fora -
Disse o chefe de expedição
Com um tratado geográfico
Pendente numa das mãos.
O trem-de-ferro passa, supersônico,
Ao tremor das persianas
Guardando, num sussurro atrasado,
As noites onde tentávamos morrer.
BOAVINDA
Hoje a vontade de beijar teu verbo,
Feixes destilando vaidades
Em borrascas de estio
Altas,
Nos verdes plasmas que
Mesmo cercados
Aspiram ao vento
E a todo azul
Possível de setembro:
Isto
De não ver nada
E rasgar estratégias
E pensar de passagem
Com o vento e
Em seguida,
Jogar fora.
Beijar a morte
E, assim,
Trair o fim
Ao primeiro dia
De outra primavera.
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