sábado, 30 de julho de 2016

CHUVA-DE-MANGA


Anda por aí
Sem entender a poesia
Dos livros
E até sente vergonha
De se ver tão miserável,
Roubando o enamoro
Do céu, cheirando a terra,
Em meio aos campos
Esquecidos da cobiça.

Faça a apologia da descrença,
Amigo que crê mais que pensa.

Chuva, quando andas
Por estas bandas,
Diz mentiras de enxurrada.
Que tu tens rastro de cheiro
É sabido até por ribeiros,
Mas ninguém não fala nada.

POESIA REVISITADA


Deixe a chave na porta,
Pelo lado de fora:

Sempre me canso rápido
Dos meus passeios noturnos
E tenho muito medo do ladrão,
Que há em mim,
Se prender na incerteza
De encontrar a casa vazia.

Ah... e se não for pedir muito
Deixe a luz acesa,
A pena no tinteiro
E o cigarro sobre a mesa.

sexta-feira, 29 de julho de 2016

O CAUSO MAL CONTADO DO CHICO MALUCO


Chico Maluco ganhou o mundo cedo.
Uns dizem que foi jogar bola no Mato Grosso
Onde conquistou uma cidadezinha, com o futebol, suas histórias
E sua viola,
Outros dizem que Chico Maluco conta muita mentira.
Talvez até tenha deixado lá muita saudade,
Outras histórias e a filha do prefeito
Apaixonada.
Vai saber...
Chico Maluco tinha sempre uma música nova
Que, de nova não tinha nada
E, atrás da música,
Tinha sempre uma história,
Então, a música era nova.
Gostava de trepar nas árvores,
Fumar
E contar umas mirondas
Que a gente gostava de acreditar,
Depois ponteava, ponteava...
Todas aquelas modas eram de Chico Maluco,
Simplesinhas, simplesinhas
Como ele dizia.
Chico Maluco deixou
Um monte de amigos pra trás,
Talvez só pra lembrá-los
Nas pescarias.
Sm dúvida,
Ele pescou o maior entre todos,
E teve as mais bonitas namoradas
Chegando, até mesmo,
A desvirginar algumas -
Coisas de Chico Maluco.
Brigava fácil pra ter seu mundo
No lugar.

Na próxima vez que  for pescar,
Sem dúvida,
Lembrarei de Chico Maluco.

SONETO ENCIUMADO


Menina do cabelo assanhado
E do andar manso de um cisne que ama,
Vou pesadelar noites de cama,
Pato-feio de um teu namorado.

Só noite e eu ainda ando assombrado
Da sombra do teu beiço que engana,
No meu, uma vontade sacana
De morrer por saber enganado.

No teu beijo, um beijo meu perdido,
Menina, a maldade de um outro achar
Canto bobo no canto escondido,

De choro, um outro canto por amar,
Não sei se pode haver um vestido,
Mas o céu, ah! esse, vou encontrar...

FIM


Nunca ter o amor
Ao qual todos têm o direito.
Sons;
Partida;
Luzes;
Velórios.

A chuva veio consumar a morte
E consumou também
A morte do meu amor.


TALVEZ OUTONO


Vou inventar, de novo,
Minhas noites
E os açoites serão suaves;

Terá brisa de janela aberta
Ventando a triste lua-cheia.

Você, sem dúvida,
Tem cheiro de colheita
E volta todo ano
A passear os pastos.
É fácil quando dormem -
Por que teimas maltratar-me?

Se quiser inventar, de novo,
Minhas noites
Do fundo do meu sono
Você não entristecerá
Os melancólicos rios mudos
Com gosto de estrada cansada

E de tanto lugar nenhum
Vai dar em nada.

Você tem cheiro
De roça de algodão à tarde -
Talvez não saiba
(Nem ninguém saberá) -:

Meus versos têm preguiça
E demoram a sonhar.

sábado, 23 de julho de 2016

IARA



No meio da confusão,
Um verso,
Caído,
Estatelado no chão,

No seio da multidão,
Imerso, 
Doído,
Feito ausência de perdão.

Noite clara,
Beijo d'água
Nina o sono
Onde Iara
Chove mágoa
Regando abandono.

Novos sacis
Pululam secas folhas,
Nos velhos gibis
As portas do fundo
Esquecendo acalantos
Abre o mundo.

MEU PAI É FORTE


Meu pai é forte
Feito retrato preto e branco -
Saúde de fotografia -
E mais esperto que a maioria.
Hoje pra enganar a morte
Está disfarçado de velhinho,
Mas vai ao banheiro sozinho.


TRANSFIGURAÇÃO


Todos os mares;
Todos os rios;
Cada manhã;
Cada verão;
Cada olhar;
Todos os gestos;
Os mais tardios
E os mais precoces
Ocasos;
As confusas pernas;
As inconsistentes salivas;
As tênues asperezas
Nas línguas;
As mesmas estrelas mortas
E a não mesma terra
Ainda vendo, indo;
Os bafos de inverno;
As madrugadas dos atos
Inconsequentes;
As filhas prontas;
As novas camas;
Os novos amores
Pesados em se ter amado
Um dia;
As Babilônias;
As choupanas;
As luas e os bêbados -
Estranho prêmio ao brilho;
Os cânceres;
Os hospitais;
Os hospícios;
Toda a loucura
Classificada e polida
A vida;
Marte logo ali;
A sarjeta fria;
Os tubarões;
Os supermercados;
A televisão;
O dia diferente
Do homem diferente
Da vida diferente
Dos iguais;
As ilhas;
A política;
A polícia;
Os mocinhos e
Os bandidos;
As fomes
Nascendo e morrendo
Feito homens;
As fragatas;
As matas;
O pó;
O asfalto e as
Filosofias;
Os mártires
Anônimos das tramas;
O fogo;
Heráclito;
As revoluções;
O pensamento;
O vento;
Cristo;
As árvores e os capins;
A noite de espera;
Um novo filho;
A guerra e, no fim
Da terra,
Os voos;
Os carros;
As drogas;
As missas;
Os domingos;
Semanas;
Impérios;
Napoleão;
Mistérios;
Santos;
Josés, Marias e
Eternos encantos
Encantando;
Marés;
Peixes inspirando
Redes;
Paredes;
O fim do outono;
As primas;
As rimas e,
Simplesmente
Naquele brilho
Despretensiosamente
Já visto, com espanto,
Você, rindo sem saber
Da eterna trama,
Num canto.

quarta-feira, 20 de julho de 2016

MARESIA


Morena
Na praia
Sem pena
Sem saia
Serena
Samambaia.

ALFA QUASE BETA


Do reino de palavras perdidas
Levantarão fantasmas,
Velhos e conhecidos
Para cozer a noite
E trazer o prêmio
Às pernas insensatas,
Portanto não se assuste
Se, de seu sonho,
Me pegar dormindo -
Já gravei teu nome
Para o caso
De uma relativa importância
Afetar dois pontos -:
Tenho sustos disfarçados
Mais fracos que os teus
Que são rosas
Toscas
E entendem de dançar o vento.

TROPEÇO


O menino percebeu,
Na namorada,
Um certo sorriso
No canto esquerdo do olho
E quando foi embora,
Custou a dormir.
Depois sonhou que caia,
Caia longamente e sabia
Que antes de bater no chão,
Iria acordar.

DESPEDIDA


Por que ir agora?
Não sabemos da memória
De nossas cadelas?
Quem sabe
O tempo de uma
Saideira -
As singularidades
Desmontadas
Do teu desenrolar
Nós?
Uma estação
Faminta
Nos leva de espera
No meu trem que vem,
No teu trem que vai
E,
No fogo da hora -
Efêmera trama
Sensata -
Tiro o chapéu
Pra Nietzsche
Dando-te
Adeus
(Até logo).

terça-feira, 19 de julho de 2016

DEZEMBRO


Não chove mais,
Não chove -
Tristeza como esta
Não houve,

Meu rincão,
Minha tristeza
Coberta de chão!

Não chove mais,
Não chove...

A beleza vem depois
Que a chuva tiver lavado,
Tiver levado o campo
Pra ver o mar.

Não chove mais,
Não chove...

Tanta tristeza,
Tanta reza

A beleza vem depois
De tanta reza,
Tanta chuva...

Vomitando mananciais
Deus ouviu
Tarde demais,
Ouviu demais.

COLÓQUIO


- Um bom poeta deveria,
Também, pensar política -
Disse-me, certa vez, um amigo
E nem reparava nas vísceras
Estabanadas, ganhando a porta
De saída da Corporação.

- Um bom poeta deveria
Olhar mais para o próprio umbigo.

TROVA UMA OVA

Uma coisa eu te digo
Com rima ou sem rima:
És amigo mais que amigo,
Ari Valério de Lima.

A mim vale tua amizade
Amicíssima de sobrar,
Amizade de compadre
Que espero não passar.

Mas já que passa vento,
Passa boi, passa boiada,
Do fundo do pensamento
Passo-te uma mulher pelada

(Que, espero, irá gostar).
Se não, não se encuque:
Gosto é de quem gostar
E gosto não se discute,

Agora, se enchi-lhe o ego
Ou lhe deixei sisudo,
És amigo, não nego,
Desculpe-me por tudo.

sábado, 16 de julho de 2016

LAÇOS DE FAMÍLIA


Tiraram minhas armas
E quebro a cara por aí,
Na raça,
Na graça
De ter colhões
Para morrer.

Sorriem-me bom dia
E vão fazendo suas vidas
Com a cor da minha.
Bebamos um trago,
Brindemos à sobriedade
Das famílias felizes
Jogando ossos e restos
Ao lobo cansado,
Enquanto a nobreza
Não vem -
No teu mal
Que não é meu
Que mal tem?

ABRAÇO


Um dia, quem sabe,
Falta de ar
E nem vontade de morder,
Só respirar
E morrer...

CONVALESCENÇA


Súbito, na mão,
A caneta
Luzidia feito o punhal
Carregando milhões
De vidas esvaídas -

Cansada de sangrar
A poesia espera
Outra cor,
Daquelas do rir
Sem se lembrar,
Do amor que se esquece
No amor.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

INTANGÍVEL


O dito pelo não dito.
Só palavras, mesmo.
Com elas
Furtamos cores,
Mas teve um beijo
De não-boca,
De vento no cabelo,
De cheiro de alguma flor
Que não lembro.
E as quinas, hein menina?
Vento encanado,
Ping-pong...
Pensando sem cabeça
Na Irlanda.
Lendas
De pretas rendas
Pra que falar?
Nos pensam
Bancos e pedras
E ruas em amnésias
De quinas
E uma abóbora.
É, menina...


MORREU UM POETA


- Morreu um poeta! -
Gritaram no mundo.
Hão de abrir suas tripas
E ler suas vísceras
Ao sol profundo,
Secas;
Morreu um poeta vagabundo
Que esqueceu a poesia
Num canto de boteco,
Na putaria,
Morreu um poeta
De uma morte qualquer,
De gangrena
Gonorreica,
Cirrose,
De chaga,
De praga de mulher -
Morreu um poeta
Quando deus quiser.

FIM DE BAILE


As crianças já foram dormir
Senhora que procura
Barcos fortes em meio a tormentas!
Precisava tanto álcool
Em meus olhos
Para, enfim, não notar
Morta aquela luz?
Repila afagos temporãos
E vá embora:
É fácil não deixar-me olhar
Mais - o fundo do poço!

É até engraçada
A necessidade de palavras:

Você não sabe como ardia
Em vodca e coca-cola
As minhas possibilidades de soluço!

As crianças ainda sabem
O rumo de casa.

Fico triste
E o mundo caminha em linha reta.

sábado, 9 de julho de 2016

MEU QUERER


Meu querer hoje é frágil,
Água límpida de fonte,
E nem pretendo torná-lo forte.
Quero antes velá-lo
Como a um bebê - pequenas coisas
Que inspiram a morder.

E acho também
Que meu querer é caco de vidro,
Fragmento de um todo irrecuperável,
Mas, agudo no toque:
Reflete um pouco do sol
E quase todas as estrelas.

COSME DE RONDÓ


Quero o poema mais bonito
Na hora em que a noite
E o dia se esbarrarem,
Sem perceber.
Vou guardá-lo
E você não saberá
Se me acorda ou embala:
Em meu sonho dia de labuta,
Hora de plantar as tempestades,
Fugindo nas copas das árvores,
Um susto, rabiscado no teu livro
E o olho arregala.

RESTOLHOS

Desculpe-me,
Mas toda vez que sinto falta de morte
Não consigo
Não olhar pra você

E pensei tanto em céu!

Estava ali
E eu sabia
Não ser a vida
Tanta estrelaria

E pensei tanto em céu!

Desculpe-me
Mas sentia falta
Em doer-me tanto o coração
Só por doer:

Saber contar de um a dez
E esperar o tempo passar.
Um:
Tive dez mundos
Mas não gostei de nenhum.
Dois:
A vida assenta
E o que vem depois?

PREVISÃO


Um dia,
Venderei minha poesia
E, então, estarei vingado:
Toda tua ironia,
Covardia,
Trocarei por alguns cruzeiros
Ou, quem sabe,
Novos cruzados:
Zero a menos,
Zero a mais...
Tanto fez,
Tanto faz...

Mas, pensando bem,
Todo o preço não pagará
O que você me fez:
Menino
Com vontade de casa,
E saudade de chorar.

Compondo breguesia
De ressacamarga cerveja,
No fundo, com gosto
De música sertaneja.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

PALHAÇO NA CORDA BAMBA EM DIA DE CHUVA E SABÃO


Esse sou eu
De versos íngremes
Nos dedos.
As poças de lama,
Na calçada,
Miram minha cabeça
Deixando o ritmo
Do coração
Seguir inquieto
E vão.
Esse sou eu
De mundo inteiro
Na mão.
Palhaço na corda bamba
Em dia de chuva
E sabão.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

ESQUINAS


                 Tenho fé nas tantas e tantas quebradiças juras dos veres de supetão, das costas, dos óculos esquecidos. Tantas verdades malquistas desmentindo as minhas flores. Não tem problema. Às vezes teu, nos lampejos de moleque, nos livros de história e nas lagartixas com seus nomes exatos - a falta de você não mais errar.

ESPERA

 

                                                 Para o seu Servídeo
                                               
                                               
                                                 "Canto infinito e breve
                                                  Abro os braços, planto leve,
                                                  Colho novas cantigas
                                                  No meu quintal."

                                                                Gutemberg Vieira

Aquele peixe, sem dúvida,
Iremos pescar juntos -
Temos as iscas e as linhas,
Cada um à sua maneira, não é?
É só esperar o tempo
E contar suas histórias
Enganando os bobos desígnios
Dele brincar com a gente.

Balela, essa de se pescar homens.
Homem não se fisga não...
Se faz no tato e no cascalho,
No esmeril e no malho
Às vezes, imperfeito:
Impaciente -

Os peixes vão estar lá:
Não têm pudor em esperar.

ORAÇÃO


Guarde meu sorriso na velha mala,
Embaixo do travesseiro,
Pois quando eu voltar trigueiro
Meus sonhos deitam, sem lhe acordar,


Meus beiços sonham, sem beijá-la,
Senhora morta do meu vagar.

PRÉ-ILÚDIO (Ou Confissões de Gêmeos)


Sou qual curva de estrada:
Inconstante e falso
Mas avaro.

TEUS OLHOS DEITARAM


Teus olhos deitaram
Sobre os meus tão rápido
Ali na calçada
E ali mesmo ficaram.

E você não sabe, moça,
Da tempestade
Embevecidamente surda
Ganhando a cidade.

Brincando de namorada
Sabendo sem saber
Meus olhos de chuva
Bebendo enxurrada.

DIÁLOGO


Por que choras
Alma enclausurada,
Não foste sóbria,
Bem-amada?

Despertei-me da vida
Num colchão de escarpas,
Inda tenho, sentida,
Uma falta de chagas.

ORGASMO


Esqueça a poesia
Assim que os olhos
Sentarem no banco de pedra
Em meio à praça
Do último verso

Na vez em que misturarmos
Paire o desespero do voar
Sem asas
Chova a terra convulsão embriagada
Afobe a cãibra do caminho
Na água rasa.
Misturando gente
E madrugada

Brilhe o sol no céu do mar
Mais nada.

VERMELHO E AZUL


Da outra vez,
Vou chorar em vermelho e azul,
Tendo teus olhos
E na frente o sul.
Anos e mágoas
E hoje o visto
Por não ver.
Vou sonhar
O me ver
Em você.

PRA QUANDO FINADOS PASSAR


De meus poucos passos sei
Um pé na lama,
Outro na cama de sonhos
Onde ornamentaste
O equilíbrio em navalhas.

Beije fundo minha chaga,
Senhora-menina-quando-chora,
Com língua comprida
De faustosas plagas -

Abra as pernas para o mundo
Parindo ingratidão.
No meu osso seco e sóbrio
Mora frio um coração:

Pra que lembrar.

DESALENTO


Vou prender um verso
Como quem arranca um coração,
Sem lisonjeas,
Nu,
Na beira da estrada,
Asperando cadafalsos
Nas minhas pretensas
Botinas de poeta.
Minha goela
Margeia distraída
Todas as brincadeiras.
Eu, filho do vento?
Tenho na chuva
Uma amiga chorosa e,
Se por acaso,
Passar o tempo,
Cito Rimbaud
Aos meus botões,
Pois,
As estrelas choram rosa,
Eu,
Que não sou astro
Nem nada,
Só fico
Prosa.

REFLEXO


A areia busca o vento
Ou o vento busca a areia?
O pé é alheio...
Cauda de sereia,
Areia,
Alhures,
Pausa...
E areia e sereia e
Aguardente
Olhar.

FORJA


Desaprendendo amor
Creio estar amando,
Vendo fugas findarem
Loucas.
Desamando preces,
Creio estar crescendo,
Sorrindo passos tortos
Bêbados.

Sou curva de caminho,
Inconsequente,
Sou lembranças parcas
No gosto da aguardente.

Se tomarmos o laço
Ao pé da letra,
Você será criança
Por ter dança no caminho
E eu avô, de velho
Caminhar sozinho.

Espero beijar um neto.

Vou lembrar violões
Nas primeiras afinações.

E o gosto da chuva
Vai nascer sobrinhos
No pó das possibilidades -
Sem querer,
Novas cidades.

O barro de tantas tramas
Vai forjar invernos
Lentos
E, se acaso
O tempo atropelar carinhos,
Tão velhos,
Seremos pontos
Tontos no espaço.

Não levantamos cama
À toa -
Tínhamos, na mão,
Chances
E brindamos ao vento
Cuspindo
Na cara dos vermes,
Nascendo,
Da brisa mãe
Ao soluço
Das manhãs.

quarta-feira, 6 de julho de 2016

ABRIL: SERENO QUATORZE


Queria tanto
A dor e a euforia
De um inferno
Que aprendi a ter
Numa história,
Onde roubaria,
Pra você,
O fogo da lareira
Envolvido no frio
Vestindo um cobertor de lã,
Cheirando à tarde
Nas roças de algodão:

Passamos rápido pelos poemas
Ocupados em não tropeçar.

ODE A ROSETA


Ah, como eu queria
Que tua cidade fosse nossa,
Me reconhecer na rua dos teus pés.
Teu ir embora
Poderia não ser tanto
Tango argentino.
Não te vejo mais na minha gente
E nem falo mais língua de árvore,
Mas, algum asfalto
Com amnésia de poeira
Quase que me lembra.
A tarde ainda é minha
Assim como meu sol que ficou -
Não tenho amigos.
Meu afastar, ainda,
É você indo embora.
Teus dias de pluvi-menstruo
É saudosa maldição
Na esterilidade faminta
Dos bueiros da cópia
Da cidade do santo.
Tudo aqui tem um pouco de você,
Porém, as partes não se completam:
Sinto carência do tudo
Que é você longe;
Da sombra do porvir no fundo do meu olho
Que é você semi-esquecida,
Na incapacidade em trazer você à tona
Que sou eu tentando ver,
Na árvore raquítica de um canteiro de esquina,
Olhos tristes que são você longe;
Dos horizontes circunvizinhos
Que vagamente - no abandono
Daquele que procura
Em todos os olhares,
Signos,
Gestos e sons
Resquícios do amor ido -
Lembram você.
A constância do voltar,
No lugar da satisfação,
Faz viva e forte
Uma faca no peito.
O sangue faz-se forte e amargo
E toma, a cada dia,
O lugar das palavras
Sufocadas no engolir seco.
Na viagem, sinto pena
Dos pinheiros altos,
Encerrados na paisagem
Dos cerrados
- Outros órfãos de raiz.

"BOM COMO FUI PRA VOCÊ"


Ei rapaz fanho,
O que você está me dizendo?
Não consigo entender.
Quem é Arthur McBride?
Não sei.
Crio algum
Com o pó da estrada na garganta,
E perdido no sonho, mas,
O que você está mesmo me dizendo?
Acho que sei
Que o pó da estrada,
Mais que no ano passado,
Assenta em seu olhar,
De perfil.
Estamos indo ao mesmo lugar?
Eu já te vi antes?
Eu não entendo, mas,
Algumas coisas...
Zé Diamante?




terça-feira, 5 de julho de 2016

ÍCARO


Hoje acordei com medo da morte
E  geograficamente perto do meu amor:
Inexato deserto
Fecundado no devir.

Tua beleza morena, menina,
Desafina minha paixão de inverno
E atrofia minhas asas.

Cair é tudo e
Perto ainda é longe
No espaço-tempo do voar.

EPITÁFIO DE DOMINGO


Derrubado.
      A derrota de menino
      Que ergue ante o olhar de Deus
      A mais nova tábua:
      Quebrar círculos.
Pulso a esmo.
      O prêmio extasiado
      Dado a quem entoou em vão
      A canção do martelo:
      Eco oco.
Persistência.
      No flanco tu,
      O indesejável e indispensável
      Parceira.
Necessidade.
      A visão ainda cega
      Da beleza da rosa
      Do lixo.
Desatino
      A necessidade de bovino:
      Ruminar segundas-feiras
      E cuspir...
      Cuspir sempre.

PARA HERÁCLITO


Meta física
É meta, mas,
Metafísica
É meta tísica.

Sou Napoleão
E a Torre de Babel
Que se levantou do mar
E o fogo pôs no chão.

De novo no rio de infância
A saudade não morreu,
Aquele rio em outra instância
Menino e homem esqueceu.

REVERSO


Olho pra você
Com olhos penais
De quem, quando criança,
Achava vulgar beijo cebola.
Assim é o olhar criança tola
De quem entra na dança
Com trejeitos pardais
À sua mercê.

PSEUDO-POÉTICA II


Arte,
Artifícios,
Arte de ofício:
Ofícios da arte,
Cartão picado da arte,
Horário de almoço da arte.
Proletários da arte
Uni-vos!!!
- Eu não.
Minha arte?
Cortês? Sã? -
Cortesã,
Prostituta de tostão,
Barganhando amor rápido
Com pressa de cigarro.
Minha arte
É saco cheio da arte
Mas,
Mais que tudo,
É covardia.

ENGLISH SONNET


Give me your hand on midnight train, my friend,
And let me take her down to the paradise.
I'll see you again when the shadows rise
And you will see that it isn't the end.

We're lookin' to the fields of promise land,
Lost in the fool fears of our proper lies, 
When the past comes around and our flame dies,
I want to keep my blind faith on your hand.

It's time to break the rules of strange place,
While smilin' yellow people , they are dyin',
Please, don't let die that blue light on your face.

Let's look to the sunrise's eyes, I'm cryin'.
It's clear that we're waitin' for the human race,
But we're lonesome travelers in the king's rain.

SIMPLES SONETO


Queria fazer um poema não-seno,
Nem cosseno, nem raiz quadrada,
Um poema que não tivesse nada,
Assim feito seu olhar moreno.

Só olhar e me mata de sereno.
Eu que, na grandeza demasiada
Das suposições edificadas,
Embaraço-me de tão pequeno.

Depois de ver teus olhos outra vez
Vou jogar no lixo toda teoria,
Num ritual de alegre e boba embriaguez.

Serei então céu, ar, fogo e calmaria,
Demiurgo caído ante tua pequenez,
Segredos de papel na ventania.

SONNET'S BLUES


                                                      "Me and the devil was walkin' side by side..."   
                                                                                                      Robert Johnson
                                                                               

Quando é necessário fundir a máscara
E então, é pouco o tempo da falha,
Densa, plúmbea, viva mortalha,
Em tosca sina, selará a xícara.

Oh, doce veneno o beijo de outrora,
Pendente no fio da navalha.
Em torpe trato, de pouca valha,
Infinito fim, por fim vigora.

Curto compasso em negro azul
Cinge em branco o mostruário,
Em novo beat, o antigo blues.

A vida pulsa em mofo armário,
 Aguardando o preço que seduz.
Ressurrecto, morre o pactário.

IGNORÂNCIA


Adormeci deitado no jardim
E tive um sonho estranho.
Acordei num sobressalto, no ar. 
E desejei
Desejei o mundo de cabeça pra baixo
Pra eu cair no azul.

ORAÇÃO A DEUS


E cada vez que eu choro
Em minha mísera pequeneza,
Tenho piedade de Deus
Que por certo deve chorar
Em sua infinita grandeza.
E cada vez que um erro
Me excita a levantar,
Tenho piedade de Deus
Que por ser todo poderoso
Privou-se de errar.

Me consolo por ti, Deus,
Que por certo não me fez
À sua imagem e semelhança.
E de seu distante rincão estelar,
Feito a mais tola das crianças,
Brinca de nos ver errar.

E cada vez que o Diabo
Vem em meu sono morar,
Me alegro por ti, Deus,
Que de seu infinito amor,
Me ensinou ao Diabo amar.
E cada vez que o amor sucumbe
Entre a carne e a dor,
Me alegro por ti, Deus,
Que por ser o amor em si,
Sempre há de me sobrar amor.

Me entristeço por ti, Deus,
Que matou seu próprio filho
Na confiança de nós, outros,
E de seu infinito tédio estelar,
Feito o mais nulo dos astros,
Espera nos ver brilhar.


segunda-feira, 4 de julho de 2016

DECEPÇÃO


Você espera que eu te leve ao céu,
Ao invés disso,
Te trago bobagens rimadas num papel.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"



XLI - Post Scriptum


                                   Dedicado à mais bela memória que um dia terei.

O problema não é a memória
Do teu nome,
Nem a memória do teu corpo,
Em felina elegância
Atravessando os labirintos
Do meu pensamento.

O problema não é teu riso suspenso
No escuro da minha insônia.

O problema não é tua alma
De passarinho
Assoviando nas manhãs
Das janelas de meu coração.

O único problema é tua altura.

Parece que teu beijo
Está a milhões de anos-luz
Desta galáxia,
Onde explodem sentimentos
E palavras,
Lacrada no meu peito.

Fim de "O Livro Das Memórias".

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XL - The End

I read almost all the books
& I know too much
Of a little bit.

My eyes are blind
& my hands are numb.

I read almost all the books
& I know that the flesh is pain
To the soul to be remembering.

So, to myself
This my own songs I sing.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXXIX

Não quero nada
Além da memória
Que é teu aconchego -
A música que mais amo
Batendo suave algodão
No ritmo do meu coração:
A alma nômade
Nos ferrolhos do corpo -
O amor mais que perfeito
Forjado no querer em solidão.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXXVIII

Desde que nos conhecemos por gente
Somos deuses
E, como todo bom deus,
Funcionários públicos.
O problema é que acomodamos
A divina providência
Na previdência social e,
Assim,
Faça-mo-nos
O mal nosso de cada dia.

" O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXVII - Epílogo

A minha memória,
Transitória glória prepotente,
Que, há pouco, me mostrou os dentes
Num riso em contrapé,
Agora me faz crente
Em não ter fé.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXXVI

No pavimento
A enxurrada poesia,
Mas virá o dia e,
Indolente,
O sol raia,
Esse arauto rabugento.

Cheira a diesel
E borracha em pó
O verde teimoso nas sarjetas

E o caos ruge atônito,
Inaudível e cego
Os dejetos lirismos.


"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXXV

Você rompeu,
Tresloucadamente vermelha,
A sala
E galáxias de borboletas,
Em câmera lenta,
Pairavam ao seu redor.

Atônito, engoli todas as palavras.

Armagedons,
Maremotos,
As sete pragas do Egito
E a imanente corrupção política
Da mãe pátria...

Ao raio que os parta!
Pudera sempre
Você vir pagar o que me deve.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXXIV - Dos Sonhos Perdidos

Sonhei você
No sonho mais belo
Que já foi dado a alguém sonhar.

Eu nunca lembro meus sonhos.

Mas sei que este sonho,
Sedimentado sob infindáveis
Eras geológicas de minha mente,
É que mantém
O desabrochar da primavera,
A bela melancolia cinza
Da chuvosa tarde outonal,
O sol tecendo
As páginas dos dias onde,
Porventura,
Quando o deus do impossível
Vacilar,
Esteja escrita,
Em estúpida e singela
Beleza,
Nossa  história.

                                                         13/10/05

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXXIII

A tua solidão me dói
Quando você me ri
Quando você me ama
Quando você me quer
Eu quero estar dentro de ti
Ser um pouco a tua alma
A minha solidão me dói

A tua solidão me dói
Quando os filhos criam asas
Quando a casa fica escura
Enquanto esfria o café
Adormecer dentro de ti
Antes que a noite cai
A minha solidão me dói.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXXII

Na brisa noturna
Bandeiras flamulam Sírius.
O cansaço,
Um trago esquecido
No além-mar astral
As ondas vêm beijar
As urdiduras da sina,
Os ecos da memória,
Aquilo que,
Por falta de escolha,
Arrastamos
Quando muito é perdido.

                                                              03-12-04

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXXI

Um balé de navalhas,
O capim seco,
O vento frio de inverno
Retalhado em infinitas canções.

Acima,
O céu zumbia inaudível
Sua hiperbórea obliquidão.

Ideias trocadas,
Torpor do fim do dia,
Hora de ir embora,
O chão se dissipando sob os pés,

A terra natal lhe estranhando,
O novo lhe cuspindo na cara,
Tudo se contorcia na boca da noite.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXX

O céu, em círculos concêntricos,
Beija meus pés.

Respiro o mundo inteiro
Nas gotas de chuva
Que abriram mão
De tocar o chão.

O céu, em círculos concêntricos,
Se abre sob meus pés
E voo no fim da tarde.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXIX

Enquanto o café estampava a madrugada
Em sua última e estapafúrdia volúpia,
Figuras de constelações em livros antigos,
Quietas, ouviam a conversa.

Como se toda chance não fosse última,
A alvorada bisbilhotava
Entre as frestas nas paredes de madeira
E o mais sacro altar, vilipendiado.

A partida envolve, em melancólico véu,
Quem fica e quem vai,
De costas, indefeso,

Envolve em melancólico véu quem fica
E quem vai, na solidão,
O mundo inteiro o recebe de braços abertos.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXVIII

O poema embotou teu olhar
Enquanto, em convulsão, a cria
Rompia o útero.

O poema embotou teu olhar
E a inocência fluiu azul
Rosa-dos-ventos.

O poema embotou teu olhar
E a filha condescendente
Paria o pai.

                                                         15-08-04

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXVII

Anteontem perdi
O melhor verso que fiz.
Ele se foi quando a estrada
Desabava em minha cara.
Bons versos são mesmo assim:
Insetos que, no horizonte,
Vão beijando a luz da tarde,
Estrelas esquizofrênicas
Na vertiginosa queda,
Contraluz
No retrovisor.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXVI

A tarde escoa abóbora
Em serena languidez
E absorta a alma vaga.

Restolhos missionários se insinuam
Na alquebrada arquitetura -
Textura de nuvens
De gafanhotos,
De Magalhães.

Absorta a alma vaga
E a tarde escoa abóbora.
A argila milenar reverencia
Na contraluz
O verde-musgo.

O braço de Centauro acena
Em oblíqua confusão
A alma vaga

Entre a partida e a chegada.

                                                                               20/07/04

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXV

O quintal pipoca verde
Na luz do resto de chuva
E do verde densas cores
Contorcendo o ar estalam
Ampulheta as folhas pingam
E o dia conta-gotas
Encharcado o tempo flui
Vendo a vida em si suspensa
E a cada ato conclui
Em novo esboço a labuta
Sorrateiramente brota
Comunhão na umidade
Campos esperam cultivo
Campos além das cidades
E mesmo a estiar sorrisos
Molha a cor da saudade.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXIV

Teus pelos caninos se eriçam
E o dorso lunar me ancora
Titubeio em brancas nuvens
E me parte a carne outrora

Me recende a terra preta
Artérias pulsam eletrônicas
A chuva espreita passageira
E no esperar se faz sinfônica

Escrevo mais das calmarias
Me hibernei no teu sargaço
A peleja me eviscera
Quem me sou além de aço?

Por monções desnorteadas
Trota a pena desalmada
Teu olhar sibério e oblíquo
Teu olhar terra minada 

Paira o campo assolado
A vaidade sem raiz
E a comportar migalhas
Um insólito aprendiz

Os teus flancos galopantes
Mentem pardas pradarias
E mentira por mentira
Um atentado à Geografia

Tanto espasmo condensado
Se derrete ao derredor
E a tinta aqui se esvai
Desbotando amor maior

Acuadas em desterro
Legiões de glórias vãs
Equacionam a miséria
Ostentam pose malsã

Meu rincão em rima rota
Submerge em teu suspiro
Me despenha seus quadris
E sem perguntar atiro

Em teu úmido astrolábio
Erram soturnas esquadras
Ruma teu quadrante sul
Meus arremedos de quadra

Se um dia vir à tona
Esse torpe alaúde
Nessas rotas escarpadas
Fui só aquilo que pude

Já você orbita plena
Meu oposto equinócio
E te fiz tão leviana
Sempre a despertar meu ócio.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXIII

Velhos amigos
Labutaram igual camelo -
Fibra infantil
Temperada a sol e fadiga,
Depositada
Na difusa retícula
Dos retratos preto e branco

Ou somente
Toscas estátuas de pedra.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXII

O que me ama na vida
São essas memórias não minhas,
Esse não ter estado em certos lugares,
Esses rios serenos
E a bruma alimentando musgos
Nos troncos das árvores esquecidas.

Incontáveis Orientes
Têm me assombrado
Por infindáveis madrugadas.

Sonho que meus dedos esquálidos
São galhos secos
Rasgando a brisa de outono,
Tecendo uma canção,
Rompendo o véu de Maia.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XXI

Queria lembrar alguma coisa
Que tivesse feito a vida
Não ser essa vã descida.
Mas a memória,
Essa transitória
Glória prepotente,
Me mostra os dentes
Num riso em contrapé:

Lembro muito
Aquilo que não é.

                                                     09-06-04

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XX

A chuva tem várias faces
E uma delas me olha hoje
Com olhos frios -
Esses pingos gelados
Da chuva de maio.

Um velho amor me olha hoje
Nesses olhos de chuva;
Um velho amor destilado
Nesses dias que me escapam
Entre os dedos -
Esses pingos gelados
Da chuva de maio.

Ah, se esse velho amor
Com olhos de chuva
Fosse algo além da erosão
Dos caminhos do meu coração
Guiando a enxurrada!

                                                                  19-05-04

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XIX

Hoje me dei conta
Que, em todo tempo
Em que dormia,
As estrelas luziam,
Quando vi Órion
Se deitando no poente.

Se o que vem
Não fosse o que vai
Arrastando tudo
Na partida;

Se a vida fosse
Tudo que se quer
E fosse pleno o momento

Mas em algo de manco
É que reside o encanto:
Essa ilusão

De ter tudo que se quer
Me desperta,

Cedo ou tarde
Na hora certa.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XVIII

Crianças não entendem
Nada de morte
E como entender
Algo que, sequer,
Existe,
Se com tanta morte
A vida persiste?

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XVII

Bebo o vinho.
Minha sede se sacia
Numa milenar tradição.

Bebo o vinho
E a uva ancestral
Me abre a veia.

Bebo o vinho
E gira em meu pensamento
A roda do tempo.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XVI

Um dia pensei poder
Rever tudo aquilo já visto
E, assim,
Houve desleixo num livro,
Num beijo,
Nalguma palavra errada,
Na hora errada
E no lugar errado.

No fundo, não sei o que pesa mais:
O fardo do arrependimento ou o da perfeição?

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XV

A lua-nova ondulava
Por detrás das folhas do cerrado
E a boca da noite
Exalava em orvalho,
Seu hálito vegetal.

No balanço da carroça
Éramos náufragos
Engolfados na imensidão
De ter o mundo pela frente.

Calados consentíamos
A certeza da chegada.
Ah! dissimulada ilusão:
O caminho é que é eterno.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XIV

Galáxias copulam gigantescas
Sobre nossas cabeças
Em orgasmos azul-lilás:
Chuva de fogos de artifício;
Trovões fungando no útero da noite.

Planetas sem erguem
Em inesperadas conjunções
- O coração é um pulsar
Onde sonda alguma irá pousar -

Desesperados, viemos à tona e,
Ofegantes respiramos,
Por fim,
A aurora.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XIII

Céu azul,
Reflexo;
Azul seu
Perplexo,
Na minha camisa.

Até hoje não consegui pegar
A verdade volátil do ar

Mas acho que o céu,
Talvez num lapso seu,
Foi eu.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XII

O trem-de-ferro ecoa
Na ampla noite do campo
Ou o amplo coração
Da ampla noite do campo
Se serviu do trem-de-ferro
Para eu poder ouvi-lo?

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


XI

Fugi de casa aos três anos
Nas asas de uma borboleta.

Encontrei Homero, o poeta cego,
Colhendo milho na beira do caminho.
Trocamos algumas ideias.

Subitamente,
Os céus crisparam-se de cavalos alados
E cada um foi para seu lado.

Na garupa etérea do regresso
A lição ficou calada
Lacrada sob os verdejantes arcos
Da estrada funda
Até o dia em que,
Numa briga de rua,
Homero morreu pelas mãos
De um moleque.

Aí então,
A lição já era nada.

                                                                                   22-02-04

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


X

Só a morte sabe
Desenhar a  perfeição.

Tudo perfeito,
Feito,
Acabado.

Pedras esculpidas
Por milenares glaciações.

Ah, venham pedras,
Habitem meus corações!

Tudo é ganhar e perder.
Tudo perfeito,
Feito,
Acabado.

No instante congelado,
Um tropeço
No começo.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


IX

Pudera eu entender
Língua de perfume
E as árvores de minha rua8
Não floririam impunes.

Pudera esta quadra
Um quê de perfeito:
Este cheiro tão espinho
Acarinhando o peito.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


VIII

O poema ficou no meio;
O almoço esfriando;
o beijo calado;
A palavra engolida;
O pai descansando;
A mãe esperando
O filho que não veio
Neste poema
Que ficou no meio.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


VII

De volta à velha casa
Guardada na memória,
O cheiro do óleo de peroba,
Todos os móveis lustrados,
Cada coisa em seu lugar,

Só esse sossego
Pego no contrapé
Do antepenúltimo rastro:
Tudo na vida é passo -
Só, meus pés ecoam
O assoalho da memória.

domingo, 3 de julho de 2016

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


VI

Você veio
No meio da madrugada,
Não sei fazer o quê,
Mas veio.
Se você já não é mais
E eu, então, sequer
Sou sombra

Por que, ainda,
Me assombra
Esse sonho que
Ficou no meio?

                                                                                                                 29-08-02

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


V

Essa vida de jogar
E não ganhar
É vida
Partida
Sem chagada
É riso
Impreciso
Uma risada
Desenhada.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"


IV - Fuga Nº 02

Tenho saudade de casa
Em tudo de simples e grave
Que tal frase comporta;
Tenho saudade de casa
Pois o vento frio do outono,
Essa epígrafe de inverno,
Me soprou uma história triste
E estou querendo chorar -
As lágrimas secarão?;
Tenho saudade de casa,
Pois o mundo aqui fora
Anda esperto demais
E preciso sorrir sem malícia
Pra viver ser novamente delícia;
Tenho saudade de casa
Porque a esta hora exata
Minha mãe cozinha
E eu não posso vê-la
Sem ela me ver
E nem me arrepender
De ser filho fraco
Que nem pode, ao menos,
Segurar o tempo;
Tenho saudade de casa,
De meu pai com ouvido no rádio:
Com quem aqui comentarei
A rodada de fim de semana?
Morro de saudade de casa
Antes que a casa me saia
De vez de dentro do peito
E morrer já nem seja perfeito.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"

III

Cardumes de moleques
Nadam na enxurrada:

Destemidos batedores
No admirável mundo novo
Desenhado pela chuva.

Deixem o cuidado
Bem guardado,
Pois além do quintal
Só vale a regra
Algazarra animal.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"

II

Conforto em flanela xadrez,
Útero me perdendo,
Esvaio-me a contragosto -

Nó amargo na garganta,
Ata a cria à lembrança,
Desatina a fugir,
Desata a chorar

E tudo, assustadoramente
Criança
Trai o mundo
A descortinar.

"O LIVRO DAS MEMÓRIAS"

I

Minha mãe
Acendendo o fogão a lenha:
Memória imemorial -

Os deuses
Acendendo o dia
Com mãos humanas.